O PRIMEIRO EMPREGO


CENÁRIO: ALGUMAS CAIXAS E CAIXOTES. AO FUNDO, UMA JANELA MOSTRA UMA FAVELA.

EM CENA UM HOMEM SENTADO SOBRE UM DOS CAIXOTES. ENTRA UM ADOLESCENTE.

Homem          – Que tu qué aqui, mulequi?

Adolescente  – Queria um emprego.

Homem          – Aqui não tem emprego pra tú, não!

Adolescente  – Por favor, me arruma um emprego.

Homem          – Teu lugar não é aqui.

Adolescente  – Por que não?

Homem          – Tú é muito novo! Só depois dos dezesseis!

Adolescente  – Caramba, aqui também?

Homem          – Como aqui também?

Adolescete    – Já cansei de pedir emprego em tudo que é comércio… padaria, farmácia, mercado, escritório… Todo mundo diz que não posso trabalhar por causa da minha idade.

Homem          – Ah, é?

Adolescente  – Diz que menor tem de estudar, mas lá em casa, a gente precisa é de comida.

Homem          – Nem de boy, pode mais?

Adolescente  – Não! Só depois dos dezesseis e como menor aprendiz.

Homem          – Quer dizer que menor não pode trabalhar?

Adolescente  – É!

Homem          – Então quer dizer que tá cheio de garoto como tú dando sopa por aí?

Adolescente  – É!

Homem          – Bom saber!

Adolescente  – Por isso que tô aqui pedindo emprego. Já que lá fora não dá pra trabalhar, será que não tem nada pra mim aqui?

Homem          – Acho que tem!

O HOMEM DE SE LEVANTA, PEGA ATRÁS DE UMA CAIXA, UM LIVRO, UM CADERNO E UMA CANETA.

Homem          – Então,, vamô fazê um teste pra vê se tú pode trabalhar na nos-sa organização. (ENTREGANDO O LIVRO AO GAROTO) Lê aí!

Adolescente  – (LENDO COM DIFICULDADE) Era… uma… ve…vez… um meni-no… Tá difícil (E VIRA ALGUMAS PÁGINAS) O menino era corajoso e…

Homem          – Tá bom, tá bom! Eu também não me entendo com as letras. Agora pega isso aqui (ENTREGA O CADERNO E O LÁPIS). Escreve aí? Cinco vezes dez, quanto é?

Adolescente – Cinqüenta!

Homem          – Vinte vezes vinte?

Adolescente – Quatrocentos!

Homem          – Tu é bom em matemática, hein?

Adolescente  – Conta é comigo mesmo!

Homem          – Isso é bom!

Adolescente  – Quer dizer que tô empregado?

Homem          – Calma aí! Preciso saber mais umas coisas.

O HOMEM PEGA ATRÁS DE UMAS DAS CAIXAS, DOIS PACOTES E COLOCA SOBRE UM CAIXOTE.

Homem          – Tú sabe que é isso?

O ADOLESCENTE PEGA O PRIMEIRO PACOTE, ABRE, CHEIRA, EXPERI-MENTA.

Adolescente  – Cocaína… Só que não tá pura, não!. Tem mistura demais aqui!

Homem          – Bom!… E agora este. (ENTREGANDO O OUTRO PACOTE). O que é isso?

O ADOLESCENTE PEGA O PACOTE, ABRE, CHEIRA, EXPERIMENTA.

Adolescente  – Isso aqui é um monte de erva misturada, mas não é maconha, não!

Homem          – Tô impressionado! Onde tú aprendeu essas coisa?

Adolescente  – Estudando!

Homem          – Não sabia que já tavam insinando isso nas escola?

Adolescente  – Não foi na escola, não! Como não posso trabalhar nas empresa, tive que aprender sobre essas coisa para tentar arrumar um emprego aqui. Então, vai me dá o emprego?

O HOMEM SE SENTA NO MESMO CAIXOTE.

Homem          – Tú sabe que aqui o bagulho é louco, não sabe?

Adolescente – Sei, sim!

Homem          – Tú pode i preso… morrê!

Adolescente  – Eu sei! Mas, eu preciso trabalhar!

Homem          – Tú já roubô alguém?

Adolescente  – Não!

Homem          – Já brigô na rua?

Adolescente  – Não!

Homem          – Não roubô, não brigô… Não sei, não!

Adolescente  – Deixa eu fazer uma experiência?

Homem          – Tú qué mesmo?

Adolescente  – Eu preciso! E já que não dá pra ser do outro jeito, tem de ser deste! É o meu primeiro emprego!

Homem          – Só que aqui não tem carteira assinada, não tem plano de saúde, nem vale transporte, nem vale alimentação, não tem estabilidade… E se te acontecê alguma coisa, não tenho nada com isso, hein?

Adolescente  – Tudo bem! Eu vou poder trabalhar, ganhar dinheiro e poder ajudar lá em casa?

Homem          – Isso vai, com certeza!

Adolescente  – Então pra mim tá bom! Quem sabe eu não goste e resolva seguir carreira?

Homem          – Ei, devagar aí, mulequi. Nem te dei o emprego ainda e tú já tá querendo me puxar o tapete?

SIRENES DE POLÍCIA. O HOMEM SE JOGA ATRÁS DAS CAIXAS. PEGA UMA ARMA E JOGA PARA O GAROTO.

Homem          – Segura aí! Agora se esconde que o couro vai comer!

Adolescente  – Mas, eu nunca atirei em ninguém!

Homem          – Tú não quer trabalhar?

Adolescente  – Quero!

Homem          – Então, tá contratado! E o trabalho já começô! Agora, abaixa!

O GAROTO SE JOGA ATRÁS DAS CAIXAS.

Adolescente  – E que eu tem de fazê, patrão?

Homem          – Quando a polícia entrar, passa fogo!

Adolescente  – Valeu pelo emprego!

Homem          – Depois que a gente resolvê esse trabalho, tú chama os outros garoto que não podem trabalhar lá fora, porque aqui, tem emprego pra todos eles!

OS DOIS FICAM EM POSIÇÃO DE ENTRINCHEIRADOS. SONS DE TIROS DE METRALHADORA. A LUZ VAI CAINDO EM RESISTÊNCIA. FECHAM-SE AS CORTINAS.

– FIM –

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3 Responses to O PRIMEIRO EMPREGO

  1. Bem reflexivo esse texto. Eu tava estranhando o linguajar do homem, e só entendi que se tratava de um traficante no meio do texto. Isso é legal. Geralmente não notamos na sociedade os homens responsáveis pelo entorpecimento dela. Senti isso no texto. Se foi, parabéns!! Ficou realmente 10!!

  2. francisco Mariano disse:

    Gostei do texto. É difícil encontrar um bom texto pela internet, a não ser de Autores famosos. Parabéns

  3. Paulo Sacaldassy disse:

    Obrigado, Francisco! E fique à vontade aqui no blog!!

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