NÃO TÁ FÁCIL PRA NINGUÉM

junho 13, 2014

CENÁRIO: UMA SALA

EM CENA, NO CENTRO DO PALCO, UMA MACA. NA FRENTE DA MACA, UMA MULHER USANDO UM JALECO ESTÁ SENTADA EM UMA CADEIRA. AO LADO DA MACA, UM “BANNER”: MASSAGEM ANTIESTRESSE – 01 HORA – R$ 20,00

Mulher – Já estamos no meio da semana e só fiz duas massagens, meu Deus, por favor, manda alguém pra mim, porque o negócio aqui está preto! Me ajuda, meu Deus, me ajuda!

ENTRA UM HOMEM.

Homem – Dá licença?

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher – (ERGUENDO AS MÃOS PARA O ALTO) Obrigado, meu Deus! O senhor não me falha.
Homem – Eu sei…
Mulher – Hãn?
Homem – É aqui a massagem?
Mulher – Claro! Vamos aliviar essa tensão?
Homem – É para isso que vim!
Mulher – Então vamos lá. O moço pode se deitar na maca.

O HOMEM SE DEITA NA MACA.

Mulher – De bruços, por favor!
Homem – Claro! Sei que você é muito boa nisso.
Mulher – Como você sabe?
Homem – Eu conheço a sua fama.
Mulher – Eu?… Famosa?…
Homem – Muito.
Mulher – Se eu fosse tão famosa assim, não precisava pedir para Deus me ajudar a toda hora.

A MULHER COMEÇA A FAZER MASSAGEM NAS COSTAS DO HOMEM.

Homem – Isso é verdade! Às vezes você exagera um pouco.
Mulher – O quê?
Homem – Você pede muito, como todo mundo! Todo mundo pede ajuda pra Deus! Um estresse!
Mulher – Como você sabe que eu peço muito?
Homem – Depois a gente conversa, agora faz o seu trabalho para que eu possa fazer o meu. Eu estou precisando relaxar.
Mulher – O moço tem uma conversa engraçada.
Homem – Você tem mãos de massagista mesmo!
Mulher – E o moço está realmente muito travado. Cheio de nódulos. Muita tensão. Isso é estresse!
Homem – Eu sei, minha filha, estou a beira de um ataque de nervos.
Mulher – O moço trabalha no quê?
Homem – Digamos que eu trabalhe com milagres.
Mulher – Milagres?
Homem – Isso.
Mulher – O moço é padre?
Homem – Mais ou menos.
Mulher – Pastor?
Homem – Mais ou menos.
Mulher – Então é Pai de Santo!
Homem – Digamos que eu seja tudo isso.
Mulher – Como assim?
Homem – Depois… Continue… Você está fazendo um bom trabalho.

A MULHER COMEÇA A MASSAGEAR OS PÉS DO HOMEM.

Homem – Nossa, que delícia! Melhor do que andar sobre o mar.
Mulher – O moço está bem?
Homem – Estou melhorando.
Mulher – Tem muita tensão, precisa relaxar.
Homem – Relaxar… Mas é difícil! Toda hora tem alguém me pedindo o impossível! É só problema e quanto mais problema, mas as pessoas me chamam. Nem eu estando em todos os lugares ao mesmo tempo, tenho dado conta de tanto pedido! Assim vou explodir!
Mulher – O moço fala como se fosse…
Homem – Deus?
Mulher – É!
Homem – É porque eu sou Deus, então tenho que falar como Deus.
Mulher – Isso é alguma brincadeira? É pegadinha?
Homem – Por isso ando tão estressado! Você mesmo estava aí agora me pedindo para te ajudar, é mentira? E como ando muito estressando, precisando de uma boa massagem, pensei: Por que não ajudar? Então estou aqui.
Mulher – Isso não é verdade.
Homem – Claro que é!

A MULHER PARA DE FAZER A MASSAGEM.

Homem – Por que você parou? Agora que eu estava me sentindo melhor!
Mulher – Peraí!

A MULHER PEGA NO BOLSO DO JALECO SEU CELULAR.

Mulher – Então, já que você é Deus, vamos tirar uma foto que eu vou postar no meu perfil. Meu facebook vai bombar!
Homem – Não, não faz isso!
Mulher – Faço sim! Vamos ver até onde vai essa brincadeira!
Homem – Não é brincadeira!

A MULHER COLA O ROSTO NO HOMEM E TIRA A FOTO.

Mulher – Agora sim. Depois que todo ficar sabendo que Deus está fazendo massagem comigo, minha vida vai mudar pra melhor.
Homem – E a minha pra pior!
Mulher – Pronto. Agora é só esperar.
Homem – Eu não vou agüentar!

EM “OFF” COMEÇAM A SURGIR VÁRIOS PEDIDOS A DEUS.

“AÍ, DEUS, DÁ UM PULINHO AQUI NA MINHA OFICINA!”
“DEUS, DÁ UMA CHEGADA AQUI NO MEU RESTAURANTE!”
“MEU DEUS, ESTOU PRECISANDO DE UNS TROCADOS…”
“POR FAVOR, DEUS, MEU NEGÓCIO ESTÁ FALINDO, DÁ UM PULINHO POR AQUI”
“DEUS, SOCORRO, ME ARRUMA UM EMPREGO AÍ”
“DEUS, ME AJUDA A ARRUMAR UM MARIDO!”
“DEUS, ME AJUDA A ARRUMAR UMA MULHER!”
“DEUS, ME AJUDA A PASSAR DE ANO!”
“DEUS, QUERO FICAR RICO!”
“DEUS, VOCÊ É UM GATO!”

NA MACA, O HOMEM COMEÇA A ESTREBUCHAR. A MULHER ENTRA EM DESESPERO.

Mulher – Que isso, Deus? Para com isso, moço!!

OS PEDIDO EM “OFF” VÃO SE REPETINDO. A MULHER FAZ UMA LIGAÇÃO NO CELULAR.

Mulher – Alô?… É da Emergência?… Por favor, preciso de uma ambulância urgente!,,, É urgente!… Deus está morrendo na minha maca!

O HOMEM CONTINUA ESTREBUCHANDO NA MACA, ENQUANTO OS PEDIDOS EM “OFF” VÃO SE REPETINDO. A LUZ VAI CAINDO EM RESISTÊNCIA. FECHAM-SE AS CORTINAS.

                                              – FIM -


CONTRATA-SE JUSTICEIRO

maio 16, 2014

EM CENA, UMA MULHER, VESTIDA COM ROUPAS PROVOCANTES, SENTADA EM UMA POLTRONA, RETOCA A MAQUIAGEM EM UM ESPELHO DE MÃO. ENTRA UM HOMEM.

Homem – Dá licença!
Mulher – (SEM OLHAR O HOMEM) O que você deseja?
Homem – Vim por causa do anúncio.
Mulher – (SEM OLHAR O HOMEM) Tem experiência?
Homem – Tenho sim senhora!
Mulher – (SEM OLHAR O HOMEM) Tem referências?

O HOMEM TIRA DO BOLSO UM JORNAL TODO AMASSADO.

Homem – Tenho aqui, ó!

A MULHER GUARDA A MAQUIAGEM, SE LEVANTA, APANHA O JORNAL E O LÊ

Mulher – Quer dizer que o seu negócio é fazer justiça com as próprias mãos?
Homem – É que eu sou justo, dona!
Mulher – Sei…
Homem – Já que a polícia não dá conta de tanta injustiça, nós é obrigado a tomar a frente, né mesmo?
Mulher – Quer dizer que basta eu dizer que alguém foi injusto comigo que…
Homem – Olhe, dona, já não fale mais que já to sentindo ódio.
Mulher – E se for mentira?
Homem – Se a senhora me jura que é verdade, pronto, já me basta!

A MULHER DOBRA O JORNAL E ENTREGA PARA O HOMEM.

Mulher – Acho que você é a pessoa certa.
Homem – A senhora manda, que eu mando o cabra pros quintos dos infernos sem dó!
Mulher – Mas, o trabalho não é nada fácil.
Homem – Não escolho trabalho não, viu dona?
Mulher – O senhor faz todo tipo de trabalho, mesmo?
Homem – Se é pra fazer justiça, não falo, não!

A MULHER SE SENTA NA POLTRONA.

Homem – A dona me fala quem é o cabra, que eu vô até os quinto dos infernos pra pegar o cabrunco!
Mulher – O homem tem medo da morte?
Homem – Tenho não!
Mulher – Mas, se o homem morrer?
Homem – Isso não acontece. Tenho o corpo fechado.
Mulher – Interessante.
Homem – Então, dona, qual é o serviço?

A MULHER SE LEVANTA, RODEIA O HOMEM. SUSSURA EM SEU OUVIDO.

Mulher – Eu quero que você me mate.

O HOMEM SE ASSUSTA E SE AFASTA DA MULHER.

Mulher – Eu quero que você me mate!
Homem – Que isso, dona? Não mato o contratante.
Mulher – Se você não me matar, eu te mato.
Homem – A dona tá de brincadeira?
Mulher – Chegou a hora de você acertar as suas mortes.
Homem – Que conversa é essa, dona?
Mulher – Você não é justiceiro?
Homem – Tenho isso no sangue.
Mulher – Eu também sou.
Homem – Que brincadeira é essa, dona?

A MULHER VOLTA A RODEAR O HOMEM E SUSSURRA EM SEU OUVIDO.

Mulher – Eu sou a morte!

O HOMEM SE ASSUSTA, FAZ O SINAL DA CRUZ.

Mulher – Eu sou a morte!
Homem – Que morte o quê?
Mulher – Você nunca ouviu dizer que a morte não é tão feia quanto pintam?
Homem – Isso só pode ser coisa do capeta.
Mulher – E então justiceiro: Vai me matar, ou prefere morrer?
Homem – Sai pra lá, satanás!
Mulher – Se não matar a morte, a morte te mata, justiceiro!

O HOMEM SACA DA CINTURA, UM REVOLVER. A MULHER SE APROXIMA DO HOMEM.

Mulher – Que justiceiro mais covarde que me apareceu por aqui!
Homem – Eu vou atirar.
Mulher – Não vai! O homem não é de nada!
Homem – Mais um passo e eu atiro no meio da sua testa, dona!
Mulher – Agora, eu é que vou te matar, justiceiro!

O HOMEM ENGATILHA A ARMA. A MULHER ABRAÇA O HOMEM E LHE DÁ UM BEIJO NA BOCA. O HOMEM CAI DESFALECIDO NO CHÃO. A MULHER SE SENTA NA POLTRONA E RETOCA A MAQUIAGEM COM UM ESPELHO DE MÃO.

                                                             – FIM -


MARIA SUBMISSA

março 28, 2014

NO BANHEIRO DE UM SHOPPING, DUAS MULHERES, UMA COM UM VESTIDO FLORIDO, MAIS DISCRETA, RETOCA O CONTORNO DOS OLHOS E A OUTRA COM SHORTS JEANS, BLUSA DECOTADA, RETOCA OS LÁBIOS VERMELHO CARMIM.

Maria 1 – Maria?
Maria 2 – Maria?
Maria 1 – Quanto tempo, hein?
Maria 2 – Abafa o caso, amiga! Senão a gente acaba entregando a idade.
Maria 1 – Já casou?
Maria 2 – Eu não! Quero isso pra mim, não! E você?
Maria 1 – Casei sim.
Maria 2 – Então me conta: É boa a vida de casada?
Maria 1 – Às vezes.
Maria 2 – Se é só às vezes, então separa logo, ué!
Maria 1 – Que separar o quê! Eu amo meu marido!
Maria 2 – Mas, você está dizendo que é só às vezes, ora!
Maria 1 – É que tem dia que não é bom!
Maria 2 – Não vai dizer que ele te bate? Te bate?
Maria 1 – Só quando eu estou errada.
Maria 2 – O quê?
Maria 1 – Agora já não tenho errado tanto.
Maria 2 – Eu não acredito!
Maria 1 – Mas ele tinha razão quando fazia isso.
Maria 2 – Para, Maria! Vamos agora denunciar esse escroto!
Maria 1 – Ei, não fala assim do meu marido. Você nem conhece ele.
Maria 2 – Mas, Maria, você não pode se submeter a isso!
Maria 1 – É como diz o ditado: Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher!
Maria 2 – Eu não acredito que estou ouvindo isso.
Maria 1 – Foi por dar ouvidos a esses pensamentos aí, que eu quase me separei do meu marido.
Maria 2 – Você já devia ter separada há anos! Apanhando, Maria?
Maria 1 – Agora ele já não tem batido mais.
Maria 2 – E por que você quase se separou do seu marido, hein?
Maria 1 – Descobri que ele me traiu.
Maria 2 – E você não fez nada?
Maria 1 – Eu quase me separei dele.
Maria 2 – Por que não se separou, Maria?
Maria 1 – Porque minha mãe é que estava certa.
Maria 2 – Traição não tem perdão, Maria!
Maria 1 – Mas a culpa não foi dele.
Maria 2 – Ãhn?
Maria 1 – Eu tinha acabado de ter neném, estava na quarentena, ele lá, cheio de necessidade. Tinha que resolver a necessidade com alguém. Resolveu com a secretária.
Maria 2 – Não acredito no que estou ouvindo.
Maria 1 – Minha mãe conversou comigo e me disse: Filha, foi só uma vez! E eu acabei entendendo a atitude dele. Afinal, homens têm as suas necessidades, não é mesmo? Aí tive que perdoar! Ainda bem!
Maria 2 – Mulher também tem suas necessidades e nem por isso…
Maria 1 – É diferente, Maria!
Maria 2 – Maria, você não precisa dele! Se livra desse homem!
Maria 1 – Mas, também, hoje em dia a mulherada anda quase pelada por aí. Fica provocando. Aí, não tem homem que resiste.
Maria 2 – Meu Deus, eu não estou ouvindo isso!

TOCA O CELULAR DA MARIA 1.

Maria 1 – Alô!… Oi, meu amor… Não, não… Já estou saindo!… É que… Tá bom!… É que estava cheio o banheiro!… Calma, não precisa ficar nervoso. Já to saindo!… Beijo.

ELA DESLIGA O CELULAR.

Maria 1 – Bom, vou ter de ir. Meu amor me espera!
Maria 2 – Deixa esse homem, Maria!
Maria 1 – Jogar fora a minha felicidade? Aqui ó!
Maria 2 – Você está acabando com a sua vida.
Maria 1 – Você fala isso porque não casou. Se não, concordava comigo.
Maria 2 – Jamé!
Maria 1 – E vê se toma cuidado! Se você passar vestida desse jeito na frente do meu marido e ele te pegar, a culpa vai ser toda tua, viu?

A MULHER 1 PASSA A MÃO NOS CABELOS, SE OLHA DO ESPELHO DÁ UM ACENO À AMIGA E SAI DO BANHEIRO.

Maria 2 – Não acredito! Será que eu sonhei tudo isso? Não pode, em pleno século XXI, ter mulher assim tão submissa!

ELA SE VOLTA PARA O ESPELHO E RETOCA NOVAMENTE OS LÁBIOS VERMELHO CARMIM.

Maria 2 – Mas, pensando bem? O mundo está cheio delas, sim! Tem mulher até que se satisfaz como amante! Coitada delas! Eu, hein? Eu sou mulher!
ELA AJEITA O CABELO, PASSA O DEDO PELOS LÁBIOS E SAI.

                                               – FIM -


NEM TUDO SÃO FLORES

fevereiro 21, 2014

CENÁRIO: UMA DELEGACIA.

EM CENA, O DELEGADO E DONA LEONOR.

Delegado   – Então, Dona Leonor, a senhora vai entregar seus comparsas, ou não?

Da.Leonor  – Eu não sei , doutor, eu não sei!

O DELEGADO BATE NA MESA E SE LEVANTA.

Delegado    – (RESPIRANDO FUNDO) Dona Leonor, a senhora foi presa em flagrante. Como a senhora me diz que não sabe nada? Eu tô tendo a maior paciência do mundo porque a senhora podia ser minha mãe, mas já estou com ela por um fio!

Da.Leonor  – Mas, seu delegado, eu já disse tudo que eu sabia. Eu conhecia a Lorena da internet e aí a gente ficou amigas. Ela era tão carinhosa comigo! Aí, ela me convidou para um chá e eu pensei: Por que não?  Ela foi até a minha casa pra me pegar de carro!

Delegado     – Dona Leonor, Dona Leonor!…

Da.Leonor  – É verdade, seu delegado! O que aconteceu foi que antes da gente tomar o chá, ela pediu que fosse com ela no banco Que mal podia haver nisso? E quando chegamos no banco, ela se encontrou com três amigos lá dentro e quando eu percebi aconteceu o assalto, ela e os amigos saíram correndo e chegou a polícia e me prendeu.

Delegado     – A senhora ainda quer que eu acredita nessa história?

Da.Leonor   – E por que não? O senhor acha que estou mentindo?

MARIA CLARA ENTRA EM CENA.

Maria Clara  – Mamãe! Mamãe! Que a senhora aprontou dessa vez?

Da.Leonor   – Eu não fiz nada, minha filha! Eu só fui tomar um chá com uma amiga!

Delegado      – A senhora participou de um assalto à banco, Dona Leonor!

Maria Clara  – Assalta à banco, mamãe?

Da.Leonor    – Eu já disse que não assaltei banco nenhum.

Delegado     – Vamos fazer o seguinte, Dona Leonor: Vou tomar um café e vou deixar a senhora com a sua filha. Mas, acho bom que quando eu voltar, eu saiba de toda a verdade, entendido?

Da.Leonor    – Mas, eu já falei a verdade, seu delegado!

Maria Clara  – Quer me explicar essa história direito, mamãe?

Delegado       – Converse com sua filha. Eu vou tomar um café e já volto.

O DELEGADO SAI DE CENA.

Maria Clara  – O que aconteceu, mamãe?

Da.Leonor     – Lembrou que tem mãe!

Maria Clara   – Sem drama, mamãe, sem drama!

Da.Leonor     – Só aparece pra me vê quando acontece alguma coisa, né?

Maria Clara  – E nos últimos tempos a senhora tem me dado muitos motivos para aparecer, não é mesmo?

Da.Leonor     – Não sei o que você está falando.

Maria Clara – É melhor deixar pra lá, que hoje a senhora já passou do limite.

Da.Leonor     – Mas, eu não fiz nada! Eu não fiz nada!

Maria Clara   – Então, será que dá pra me explicar?

Da.Leonor      – Só que para de brigar comigo que já tô nervosa!

Maria Clara  – Tudo bem, mamãe! Agora me conta: como a senhora veio parar aqui.

Da.Leonor     – Sabe aquela minha amiga da internet?

Maria Clara   – Amiga da internet? Que amiga?

Da.Leonor    – Eu já te falei! Aquela bonitinha que eu te mostrei aquele dia que você foi lá em casa.

Maria Clara   – Que bonitinha, mamãe?

Da.Leonor     – Você não se lembra que eu te mostrei as fotos daquele passei lá de Águas de Lindóia?

Maria Clara   – Aquele passeio não foi do grupo da melhor idade, mamãe?

Da.Leonor     – Mas eu convidei ela e ela foi comigo.

Mara Clara    – Mamãe, mamãe!

Da.Leonor     – Todo mundo perguntava se ela era minha filha! Como ela era carinhosa comigo! Não me deixou sozinha uma única vez!

Maria Clara   – E como é o nome dessa bonitinha?

Da.Leonor     – O nome dela é Lorena.

Maria Clara   – Mas como a senhora conheceu ela?

Da.Leonor     – Ela pediu pra ser minha amiga na internet e aí eu aceitei.

Maria Clara   – Mamãe, mamãe!

Da.Leonor     – Todo dia ela me mandava uma mensagem bonita!

Maria Clara   – E a senhora não sabe onde ela mora?

Da.Leonor     – Não, não sei!

Maria Clara   – Quantas vezes eu lhe avisei para ter cuidado na internet.

Da.Leonor     – O que é quem tem fazer amigos na internet?

Maria Clara   – O que dá? Dá nisso, ó! A senhora aqui, na delegacia, acusada de um crime!

Da.Leonor      – Mas eu já disse que não fiz nada!

Maria Clara   – Quero ver convencer o delegado disso?

Da.Leonor     – (CHORANDO) Como eu ia saber? Isso é culpa sua!

Maria Clara   – Culpa minha?

Da.Leonor     – Você ás vezes esquece que tem mãe.

Maria Clara   – Ora, mamãe, faça-me um favor!

Da.Leonor     – (ENXUGANDO AS LÁGRIMAS) É verdade!

Maria Clara  – A senhora sabe o sacrifício que tenho que fazer depois que me separei de Otávio! Dou aula em duas escolas e ainda tenho meus três filhos pra cuidar. E sempre quero levar a senhora para ficar com a gente lá em casa, mas a senhora quase nunca vai.

Da.Leonor  – Eu tenho casa, sabia? Tenho minhas coisas! Gosto de conversar com os meus amigos.

Maria Clara   – Amigos como essa Lorena? Tô vendo!

Da.Leonor    – São meus amigos, sim! Quando eu estou triste, eles estão lá pra me alegrar! Quando eu estou me sentindo sozinha, é com eles que desabafo! Quando a depressão ataca, é com eles que me recupero. Eles são meus amigos, sim! Eles gostam mais de mim do que você!

Maria Clara   – Que absurdo, mamãe!

Da.Leonor   – A gente fica velha e os filhos fogem da gente, é isso que acontece!

Maria Clara   – Olha, mamãe, vou fazer de conta que não ouvi nada disso!

Da.Leonor     – Mas é a mais pura verdade! Você só lembra da mãe, quando precisa de dinheiro! Quando quer comprar alguma coisa no cartão! Você nunca fez uma visita sem interesse.

Maria Clara   – Que absurdo, mamãe!

Da.Leonor  – E não quero mais falar com você. Seu delegado! Seu delegado!

Maria Clara   – Acho melhor a senhora se controlar. Olha a pressão!

Da.Leonor     – Seu delegado!

Maria Clara   – Para com isso, mamãe!

Da.Leonor     – Seu delegado! Seu delegado!

MARIA CLARA PEGA DONA LEONOR PELO BRAÇO.

Da.Leonor     – Me solta!

MARIA CLARA LARGA DONA LEONOR.

Maria Clara   – Senta que vou pegar um copo d’água pra senhora.

DONA LEONOR SE SENTA E COMEÇA A CHORAR. MARIA CLARA PEGA UM COPO D’ÁGUA NA MESINHA AO LADO DA MESA DO DELEGADO E DÁ PARA DONA LEONOR.

Maria Clara   – Toma, mamãe! Agora fica calma que a gente vai dar um jeito nisso.

DONA LEONOR, COM AS MÃOS TREMULAS, BEBE A ÁGUA. O DELEGADO ENTRA.

Delegado        – E então, Da.Leonor, vai entregar seus comparsas, ou não!

DONA LEONOR NÃO LEVANTA A CABEÇA, CONTINUA A BEBER A ÁGUA.

Maria Clara   – Seu delegado! O que aconteceu foi que a minha mãe acabou sendo vítima de uma bandida! Ela não teve nada com o assalto.

Delegado        – Só que ela não tem como provar. Tem, Dona Leonor?

Da.Leonor  – No meu facebook! Lá tem todas as mensagens que ela mandou. Tem as fotos… O senhor pode entrar no perfil dela também.

Delegado        – Facebook? Então me mostra.

O DELEGADO FAZ DONA LEONOR SENTAR EM SEU LUGAR E A DEIXA MEXER NO COMPUTADOR QUE ESTÁ SOBRE SUA MESA.

Da.Leonor      – Aqui o senhor vai ver que eu não tenho nada com isso.

Maria Clara     – Vai, mamãe!

Da.Leonor      – Tem alguma coisa errada!

Delegado        – É, dona Leonor! Assim vai ficar difícil!

Maria Clara    – O que foi, mamãe?

Da.Leonor      – É a senha! Não consigo entrar.

Maria Clara    – Calma mamãe, calma!

Delegado        – Vamos lá, Dona Leonor! Devagar!

Da.Leonor     – Não lembro a minha senha!

Maria Clara   – Quer que eu tente?

Da.Leonor     – Tenta, minha filha!

DONA LEONOR SE LEVANTA E MARIA CLARA VAI PARA O SEU LUGAR.

Maria Clara   – E qual a senha, mamãe?

Da.Leonor     – Peraí! É…

Delegado        – É o seu nascimento? Data do casamento?

Maria Clara    – Diz, mamãe!

Da.Leonor      – Tenta… vinte e quatro, onze, setenta e cinco.

Maria Clara    – Pronto! Entrou!

Delegado        – Agora vamos ver se a gente resolve isso de vez.

Da.Leonor      – Agora clica em amigos. Cadê?… Ela sumiu do meu perfil!

Delegado      – É dona Leonor, assim vou ter que indiciar a senhora! Acho bom a senhora chamar um advogado.

Da.Leonor     – Eu não fiz nada. O senhor acha que eu sou bandida?

Delegado     – Eu não acho nada! O que eu acho é o que todo mundo viu. Que a senhora entrou no banco de braços dados com a tal da Lorena e quando já estava dentro do banco, anunciaram o assalto. Eles fugiram e a senhora acabou ficando pra trás.

Da.Leonor      – Por favor, seu delegado! Acredita em mim!

DONA LEONOR SE SENTA E COMEÇA A CHORAR. MARIA CLARA TENTA ACALMÁ-LA.

Maria Clara   – Calma, mamãe! Vou ligar por meu advogado pra ver se ele pode vir aqui.

Delegado      – Vou deixar a senhora à vontade. Faz sua ligação que eu já volto.

O DELEGADO SAI.

Maria Clara   – Eu vou ligar por doutor Heitor, não sei se ele cuida dessas coisas. Ele está cuidando do meu processo de pensão alimentícia contra o Otávio.

MARIA CLARA LIGA.

Maria Clara     – Está ocupado!… Calma, mamãe!

MARIA CLARA PEGA MAIS UM COPO D’ÁGUA PARA DONA LEONOR.

Maria Clara     – Toma a água, mamãe!

DONA LEONOR PEGA O COPO. TEM AS MÃOS TREMULAS.

Da Leonor      – Eu não sabia, minha filha, eu não sabia que ela era bandida. Era tão boazinha!

Maria Clara     – A gente vai dar um jeito nisso.

MARIA CLARA TENTA DE NOVO COM O TELEFONE.

Maria Clara  – Alô!… É do escritório do doutor Heitor?… Ele está?… Não?… Ele volta?… Viajando?… Obrigado… Não, não precisa! Depois eu ligo! Até logo!

MARIA CLARA DESLIGA O TELEFONE.

Maria Clara     – Doutor Heitor está viajando! E agora?

Da. Leonor     – Será que eu vou ficar presa?

Maria Clara    – Não sei mamãe, não sei!

Da.Leonor      – Tenta o Otávio! Ele sempre gostou de mim. Aposto que vem me ajudar.

Maria Clara    – O Otávio? Nem morta! Com aquele ali e só falo na frente do juiz.

Da.Leonor      – É, acho melhor eu me acostumar com a ideia de dormir por aqui.

Maria Clara   – Agora vai fazer chantagem, mamãe? Eu devia lhe internar num asilo.

Da.Leonor      – Nem morta! Faz isso eu te deserdo!… Dá esse telefone que eu falo com ele.

DONA LEONOR PEGA O TELEFONE DA MÃO DE MARIA CLARA. O DELEGADO ENTRA. DONA LEONOR LIGA.

Da.Leonor      – Você não tem jeito mesmo, hein? Telefone sem crédito.

Maria Clara – Mas tinha, a senhora não viu que eu liguei para o meu advogado?

Delegado        – E então? Falou com o advogado?

Maria Clara   – Meu advogado está viajando.

Delegado        – Vou ter que deixar a senhora essa noite aqui, dona Leonor!

Da.Leonor   – Será que eu posso usar o telefone para falar com o meu genro?

Maria Clara    – Ex, mamãe, ex!

Delegado        – Claro que pode!

Da.Leonor     – Por isso que está sozinha, só pensa em você!

Maria Clara   – Não vou discutir com a senhora, mamãe!

Da.Leonor     – Dá licença.

DONA LEONOR PUXA O TELEFONE E FAZ A LIGAÇÃO.

Da.Leonor    – É pra celular, não faz mal?

Delegado       – Não, dona Leonor!

Maria Clara  – A pessoa envelhece e parece que vira criança, só dá trabalho, só dá trabalho!

Da.Leonor     – Está chamando!

Maria Clara   – Ainda vai me fazer passar vergonha com o Otávio!

Da.Leonor   – Alô!… Eduardo? Não, não é o Eduardo, não!… Não é o Otávio que está falando?… Otávio!… Aqui é a Dona Leonor!… O que eu estou fazendo na delegacia? Como você sabe que eu estou na delegacia?… O delegado?… Você quer falar com ele? (ELA TAMPA O FONE) Ele que falar com o senhor?… Espera aí, Otávio, estou passando o telefone pra ele.

DONA LEONOR PASSA O TELEFONE AO DELEGADO.

Delegado        – Pronto!… Doutor Eduardo falando!

Maria Clara     – O que ele falou?

Da.Leonor      – Falou que queria falar com o delegado.

Delegado        – É você Otávio?

Maria Clara     – Como ele sabia?

Da.Leonor      – Não sei!

Delegado        – Não acredito! Você é o ex-genro da Dona Leonor?… É meu amigo, ela se meteu em uma confusão aqui…Entrou no banco de braços dados com uma assaltante… Eu sei, Otávio, mas você tem que entender minha posição… Você se compromete com isso?… Olha lá, hein?… Não devia fazer isso!… Você sabe, né? Vou fazer isso em sua consideração… Então tá certo!… Prepara a carnê e põe a cerveja pra gelar, que mais tarde estou por aí…. Abração!

O DELEGADO DESLIGA O TELEFONE.

Delegado        – É, dona Leonor, a senhora está com sorte!

Maria Clara   – O que meu ex-marido lhe falou.

Da.Leonor     – Ele vai me ajudar?

Delegado        – Ele já ajudou.

Maria Clara   – Vai mandar um advogado?

Delegado        – Olha só, dona…

Maria Clara   – Maria Clara.

Delegado    – Então, dona Maria Clara, espero que a senhora não fique brava comigo.

Maria Clara   – Eu?

Da.Leonor     – O Otávio vai me ajudar mesmo? Tá vendo, Maria Clara?

Delegado      – Sabe o que é, dona Maria Clara, a feliz coincidência é que o Otávio, seu ex-marido, é o marido da minha irmã.

Maria Clara   – (PARA PLATEIA) Ai que ódio! Mamãe, a senhora me paga!

Da.Leonor      – Não fala nada, Maria Clara, não fala nada!

Delegado       – E em consideração á ele, vou liberar a senhora, Dona Leonor. Não devia, mas vou fazer!

Da.Leonor     – Obrigado, doutor, obrigado!

Delegado        – A senhora deve agradecer ao destino e ao seu ex-genro.

Maria Clara   – Que vergonha, mamãe! Com que cara eu vou olhar o Otávio agora?

Da.Leonor      – Com essa sua cara de sempre, ora!

Delegado        – Mas presta atenção, Dona Leonor: Assim que a gente colocar a mão nessa tal de Lorena, quero a senhora para esclarecer esse caso, ouviu?

Maria Clara    – Pode deixar, senhor delegado, eu me encarrego disso.

Da.Leonor      – Eu não preciso. Sei muito bem cuidar da minha vida!

Maria Clara   – Eu vi mamãe, eu vi! Agora vamos pra casa!

MARIA CLARA TENTA SEGURAR DONA LEONOR PELO BRAÇO.

Da.Leonor     – E me larga que eu vou sozinha!

Maria Clara  – E a senhora para com essa mal criação, senão interno mesmo a senhora num asilo!

Da.Leonor     – Até logo, seu delegado!

O DELEGADO CUMPRIMENTA DONA LEONOR E MARIA CLARA.

Delegado       – E vê se agora toma cuidado com essas amizades da internet, hein?

Da.Leonor   – Pode deixar, seu delegado. Prometo que vou tomar mais cuidado.

MARIA CLARA PEGA NOVAMENTE A MÃE PELO BRAÇO.

Da.Leonor      – E eu já falei, me solta que eu sei andar sozinha.

Maria Clara   – Mamãe, mamãe!

AS DUAS VÃO SAINDO DE CENA, DISCUTINDO.

APAGAM-SE AS LUZES. FECHAM-SE AS CORTINAS.

- FIM -

(ESTE TEXTO FOI SELECIONADO NO 2º.MODELO DO PROJETO “DRAMATURGIAS URGENTES” REALIZADO PELO CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL DE SÃO PAULO EM 2012)


NO REINO DOS EMERGENTES, O QUE FALTA É SER GENTE!?

dezembro 15, 2013

CENÁRIO: UM REINO QUALQUER. NO CENTRO, UM TRONO.

Ao abrir as cortinas, um homem está em cena, ele veste roupas simples e tem uma mala ao seu lado. Entra uma mulher vestida de rainha, ela fala ao celular.

Rainha – Já falei, comigo é assim! Eu gasto mesmo! Eu quero festa! Eu quero tudo pra mim! Eu posso, né nega? Afinal de contas, eu estou no poder. Quem diria que um dia, a Classe Média ia virar rainha, hein?

ELA PARA DE FALAR NO CELULAR.

Rainha – Que mala é essa?

Homem – Eu vou embora.

ELA VOLTA A FALAR NO CELULAR.

Rainha – Depois a gente fala, te com problema por aqui! Depois te conto!

A RAINHA DESLIGA O CELULAR E O GUARDA ENTRE OS SEIOS.

Rainha – Que história é essa de me deixar?

Homem – Não aguento mais!

Rainha – Não aguenta? Quer dizer que a vida comigo é ruim?

Homem – Você acabou comigo!

Rainha – Eu acabei com você?

Homem – Você só que saber de futilidades, coisas materiais…

Rainha – E você, não? Me quis tanto e agora da me desdenhando? Você é um ingrato! Eu te dei um mundo maravilhoso!

Homem – Pra quê?

Rainha – Pra ser feliz! Vai dizer que você não foi feliz pelo menos um pouquinho?

Homem – Mas, você mudou muito.

Rainha – Você também! Você lembra de quando você chegou? Um sujeito com auto estima lá no pé! Eu até pensei comigo: como um troço desse conseguiu chegar no meu reino?

Homem – Você não queria nem me deixar entrar.

Rainha – Eu juro que não queria me render a você! Mas você me conquistou!

Homem – Você não imagina o quanto eu tive que caminhar até chegar até aqui.

Rainha – Imagino sim! Muitos já fizeram esse mesmo caminho.

Homem  – Mas, não posso mais.

Rainha – Por quê?

Homem – O teu poder.

Rainha – O que tem o meu poder?

Homem – Quanto mais o tempo foi passando, mais o poder foi subindo a sua cabeça.

Rainha – Imagina!

Homem – Verdade!

O CELULAR TOCA. A RAINHA O TIRA DOS SEIOS.

Rainha – Quem é? Oi minha amiga! Trouxe minha lembrancinha de Nova York?… Não? Que malvada! E gastou muito?… Não acredito!

O HOMEM PEGA A MALA E COMEÇA A SAIR. A RAINHA INTERROMPE A LIGAÇÃO.

Rainha – Espera!

Homem – Não tenho mais tempo.

Rainha – Só um minuto.

A RAINHA VOLTA A FALAR NO CELULAR.

Rainha – Amiga, preciso desligar, depois quero saber de tudo, hein?… No salão?… Pode ser! Tô precisando mesmo fazer uma escova! Sabe como é, né?  Festas… viagens… tenho que tá sempre linda! Um beijo! Depois te ligo!

A RAINHA DESLIGA O CELULAR E VOLTA A GUARDÁ-LO ENTRE OS SEIOS. O HOMEM JÁ ESTÁ QUASE FORA DE CENA.

Rainha – Volta! Vamos conversar, vai? Não vai embora.

O HOMEM LARGA A MALA E VOLTA.

Homem – Olha só você! Não era isso o que eu queria quando te busquei tanto! Eu sonhei tanto com tudo e agora o que eu vejo? Futilidades, consumismo e uma vida vazia. Você e esse seu poder! Você acha que pode tudo?

Rainha – O que você quer? Eu posso mesmo! Eu posso tudo! Hoje eu quero, vou lá e compro! Tá reclamando do quê? Já esqueceu que o meu poder trouxe pra você?

Homem – Não, não esqueci! E sabe o que eu tenho hoje? Nada! Você se perdeu e está se afogando nessa sede de poder!

A RAINHA SE SENTA NO TRONO.

Rainha – Eu não entendo você! Eu te fiz tanto bem e o que eu recebo em troca? Rancor, ofensas, desaforos. Todo o meu poder é porque eu nunca pude. Você não conhece aquele ditado: pobre que não vê melado, quando come se lambuza? No meu reino, todo mundo se lambuza!

O HOMEM VAI ATÉ A MALA E A TRAZ PRO CENTRO DA CENA. A ABRE E TIRA DE DENTRO UM MONTE DE CONTAS E CARNÊS.

Homem – Olha só isso! Olha só!

JOGA AS CONTAS E OS CARNÊS PELA CENA. A RAINHA SE LEVANTA DO TRONO.

Homem – Isso é o que teu reino me deu. Contas, contas e contas!

Rainha – Contas todo mundo tem! Todo mundo precisa fazer umas comprinhas de vez em quando.

Homem – Mas, aqui, só vale comprar, comprar e comprar. E você o que faz? Faz todo mundo comprar, comprar e comprar ainda mais.

Rainha – E não é bom comprar?

Homem – Só que um reino não se faz só de coisas superficiais. Você não quer saber das pessoas! Neste seu reino, todo mundo perdeu o respeito, se acha dono da verdade, acha que pode tudo, não se importa com ninguém! É cada um por si e resto que se foda!

Rainha – Não é verdade!

Homem – Você criou um reino sem sentimento, onde o que interessa é gastar, ter, ser o melhor, possuir!

Rainha – Como você é ingrato!

Homem – Ingrato, eu?

Rainha – Quando você chegou aqui, todo maltrapilho, com aquela de pobre, mal sabendo falar direito, fui eu que te mostrou o caminho. Tô mentindo?

Homem – Por que eu quis!

Rainha – No meu reino, tem oportunidade pra tudo e para todos e aqui, cada um se lambuza como quer! Você foi se instruir, mas outros querem se divertir, ter, possuir, consumir, e daí, qual o problema?

Homem – O problema é que cada um quer ser melhor do que o outro, e com isso, tudo mundo vai se endividando e você ao invés de ajudar, faz é mais todo mundo gastar, gastar e gastar ainda mais.

Rainha – Olha, meu querido! Você está comendo no prato que comeu! Eu sempre apostei em você, mas se você quer ir, o que eu posso fazer?

Homem – Agora você se faz de coitada! Me leva do inferno ao céu e depois me devolve ao inferno e ainda diz que a culpa é minha?

Rainha – E não é?

Homem – Não!

Rainha – Quer que eu te prove?

Homem – Então prova!

TOCA O CELULAR DA RAINHA. ELA O TIRA DE ENTRE OS SEIOS.

Rainha – (PARA O HOMEM) Um minuto!

Homem – Não sei o que ainda estou fazendo aqui!

Rainha – Quem é?… Da onde?… Lar das crianças desamparadas?…  Posso sim!… Dez! Isso!… Pode mandar passar amanha. Até logo.

A RAINHA DESLIGA O CELULAR E O COLOCA ENTRE OS SEIOS.

Rainha – Onde a gente tava?

Homem – É impressionante!… Fazendo filantropia?…

Rainha – Ajudar faz bem!

Homem – Alivia o remorso, né?

Rainha – Escuta aqui: Aqui não se tem remorso, aqui se busca ser feliz. Se você esqueceu de como se faz pra ser feliz, problema seu! A porta do meu reino está sempre aberta. Tanto para entrar, quanto pra sair.

Homem – Eu vou mesmo!

Rainha – Então vai!

O HOMEM COMEÇA A RECOLHER AS CONTAS E OS CARNÊS ESPALHADOS EM CENA E VAI OS GUARDANDO NA MALA.

Rainha – Uma pena que você esqueceu de ser feliz!

Homem – Uma pena que você esqueceu os valores!

Rainha – Esqueceu que as minhas festa são recompensas do teu trabalho!

Homem – Esqueceu que ser é muito melhor que ter!

Rainha – Nem se lembra mais que te realizei os sonhos!

Homem – Nem se lembra mais o que é solidariedade!

Rainha – Esqueceu que a vida melhorou!

Homem – Esqueceu o que é humildade!

Rainha – Uma pena!

Homem – Uma pena!

O HOMEM FECHA A MALA. A RAINHA SE SENTA NO TRONO. O HOMEM VAI SAINDO.

Rainha – Fica!

Homem – Não posso!

Rainha – Por quê?

Homem – Eu não soube viver com você.

Rainha – Vai ver a culpa é mesmo minha!

Homem – A culpa é minha. Eu já assumi meus erros.

A RAINHA SE LEVANTA, VAI NA DIREÇÃO DO HOMEM E PEGA SUA MALA.

Rainha – Fica? Vem? Eu posso te ajudar.

Homem – Não pode!

Rainha – Deixa de ser orgulhoso.

Homem – Não é orgulho. Abusei de mais de tudo, que não tenho como ficar.

Rainha – Vai pra onde?

Homem – Não sei ainda?

Rainha – Deixa de bobagem! Aqui é o seu lugar.

Homem – Já não tenho mais certeza.

Rainha – Eu sei que viver no meu reino não é uma tarefa simples. São muitas tentações, que muita gente se perde. Mas uma coisa você tem que concordar comigo. Não existe um lugar onde viver seja uma festa, como aqui neste meu reino. Diz que não?

Homem – Claro que não!

Rainha – Esquece essa história.

Homem – Não dá!

Rainha – O que é melhor? Um jantar dançante no reino dos grã-finos ou pagodão aqui no nosso quintal?

Homem – Um pagodão, é claro!

Rainha – Então, tira essa ideia de ir embora da cabeça.   Sábado tem uma feijoada com pagode para comemorar a chegada de mais habitantes aqui no meu reino. Você vai perder?

Homem – Não sei se tenho condições de continuar.

Rainha – Você não gosta daqui?

Homem – Gosto!

Rainha – Então não se fala mais nisso! Leva essa mala pra dentro e vai cuidar da vida que é a Rainha Classe Média que está mandando.

O HOMEM PEGA SUA MALA. A RAINHA SE SENTA NO TRONO.

Homem – Posso lhe fazer um pedido?

Rainha – O que você quiser! Esqueceu que eu sou a Rainha e eu posso tudo?

Homem – Olha a soberba da classe média aí, gente!

Rainha – Quem pode, pode!

Homem – E como eu sei que não posso, só queria lhe fazer um último pedido, posso?

Rainha – Manda aí, o teu pedido!

Homem – Neste reino dos emergentes, o que falta é ser gente! Por quê você não cuida disso?

A RAINHA SE LEVANTA DO TRONO.

Rainha – Aí você está ofendendo. Aqui só tem gente de bem.

Homem – Bem endividada! Bem individualista! Bem cara de pau! Bem sem respeito! Bem cheia de razão! Bem consumista! Bem gorda! Bem metida!

Rainha – Eu não admito esses insultos no meu reino!

Homem – É isso que você faz!

Rainha – Fora do meu reino!

Homem – A verdade dói, né?

Rainha – Não é a verdade! É a ingratidão!

Homem – Ingratidão?

Rainha – Ingratidão, sim!

Homem – A gente não vê a hora de conhecer a Classe Média, mas, quando conhece, se decepciona.

Rainha – Eu não devia ter deixado você entrar!

Homem – Eu que não deveria ter vindo!

Rainha – Vai, vai que eu não te quero aqui!

Homem – Eu vou porque eu quero! Essa vida Classe Média é ilusão!

Rainha – Vai, mas depois não vai chorar pelo que perdeu!

Homem – O que eu tinha de perder, perdi aqui! Adeus, dona classe média!

Rainha – Dona, não! Rainha! Rainha!

O HOMEM PEGA A MALA E SAI DE CENA.

Rainha – É sempre assim, sempre tem alguém que fica insatisfeito! Mas, ninguém tem como negar, que hoje em dia, não tem um pobre que não queira entrar no meu reino.

TOCA O CELULAR DA RAINHA. ELA ATENDE.

Rainha – Alô!… Se eu posso falar? Posso sim!… O que foi?… Nem te conto!… É a ingratidão, nêga, ingratidão!… As pessoas entram no meu reino, se fartam de gastar, depois ainda colocam a culpa em mim… Mas é a vida!… Se eu quero ir pro shopping?… Só se for agora!… A gente se encontra. Tchau!

A RAINHA DESLIGA O TELEFONE E O GUARDA ENTRE OS SEIOS.

Rainha – Bom, agora eu vou as compras, porque agora eu sou classe média e posso tudo!

A RAINHA SAI DE CENA DANÇANDO E CANTANDO UMA MÚSICA POPULAR.

APAGAM-SE AS LUZES E FECHAS AS CORTINAS.

FIM


O GRINGO E A PORTA-BANDEIRA

novembro 16, 2013

CENÁRIO: UMA RUA. UMA MESA E CADEIRAS EM UM DOS CANTOS DO PALCO, COMPÕEM A CENA.

AO ABRIR AS CORTINAS, UM CASAL DE MESTRE SALA E PORTA-BANDEIRA, QUE USAM ROUPAS COMUNS, ELE, CALÇA E CAMISA E ELA, UM VESTIDO, DANÇAM AO SOM DE UMA BATERIA DE ESCOLA DE SAMBA EM OFF. UM HOMEM ASSISTE. TENTA DANÇAR. A BATERIA PARA E O CASAL ENCERRA A APRESENTAÇÃO. O HOMEM OS APLAUDE, ENTUSIASMADO.

Gringo           – Is beautiful! Is wonderful! (COM SOTAQUE) Muito boa! Muito boa! Os dois dançar wonderful! (PARA PORTA-BANDEIRA) And you is beautiful! Muito bonita!

OS DOIS CUMPRIMENTAM O HOMEM, FAZENDO REVERÊNCIA. O HOMEM CONTINUA APLAUDINDO.

Mestre Sala  – (PARA PORTA BANDEIRA) Vamos parar um pouco?

P.Bandeira    – Vamos, sim! Pega um pouco d’água pra mim?

Gringo            – Deixar que eu pega!

Mestre Sala   – Tá tranquilo, Gringo. Deixa comigo!

O MESTRE SALA SAI DE CENA.

P.Bandeira    – É a primeira vez aqui no ensaio?

Gringo            – Não entender!

P.Bandeira  – (FALANDO PAUSADAMENTE) É a primeira vez aqui no nosso ensaio? Samba?

Gringo            – Yes! I like samba!

O MESTRE SALA ENTRA TRAZENDO UM COPO COM ÁGUA. O ENTREGA À PORTA-BANDEIRA

Mestre Sala  – Toma aí! Vou tomar uma cerva com a diretoria e já volto pra gente continuar.

P.Bandeira      – Vê se não vai encher a cara, hein?

Mestre Sala     – Qualé, neguinha, tá me estranhando?

P.Bandeira      – Sei..

Mestre-Sala     – E toma cuidado com o gringo aí, hein?

O MESTRE-SALA SAI DE SALA.

Gringo            – O que ele dizer?.

P.Bandeira    – Nada, não! Mas, me diz: tu tá de férias?

Gringo            – Hein?

P.Bandeira    – Férias. Descansando. Sem trabalhar.

Gringo            – Oh! Off course! Estar descansando? No! Estar trabalhando no Brasil! Ah, e procurando um namorada!

P.Bandeira  – Um Gringo bonito desse procurando namorada? Duvido? Aposto que está assim de mulher dando mole!

Gringo            – Não entender. Dando mole? No entender.

P.Bandeira     – Interessada.

Gringo            – Interessada?

P.Bandeira    – Deixa pra lá!

Gringo            – Deixar para lá? O quê?

P.Bandeira    – Jeito de falar. Acho que preciso me sentar um pouco.

A PORTA-BANDEIRA VAI ATÉ A MESA E SENTA EM UMA DAS CADEIRAS. O HOMEM VAI ATRÁS.

Gringo            – I can?

P.Bandeira    – Hein?

Gringo            – Sentar?

P.Bandeira    – Senta aí, Gringo!

Gringo            – O dançarino é namorado seu?

P.Bandeira    – O Mestre Sala? Nada. É só meu par.

Gringo            – Você é muito bonita.

P.Bandeira    – Oh, que sotaque mais lindo! Quanto tempo aqui?

Gringo            – Two day. Duas dias.

P.Bandeira    – E já sabe falar um pouco de português?

Gringo            – Eu vir todo ano atrás de um namorada, mas não consegue.

P.Bandeira    – Não acredito?

Gringo          – É verdade. Mas achar que as mulheres não gostar de mim. Devo ser um jaburu!

P.Bandeira   – Oh, que gracinha! Não, você não é um jaburu. Você é lindo!

Gringo            – Então por que brasileira não namora eu?

P.Bandeira    – Ãnh?

Gringo            – You não quer namorar eu?

P.Bndeira      – De repente!…

Gringo            – De repente?

P.Bandeira    – Será que eu sou a pessoa certa?

Gringo            – Pessoa certa?

P.Bandeira      – É!

Gringo            – Yes! Você, pessoa certa!

P.Bandeira    – Mas, eu nem te conheço!

Gringo            – Off course! Perdon. My nome is Thomaz!

P.Bandeira    – My name is Berenice!

Gringo            – (COM DIFICULDADE) Be – re – ni – ce.

P.Bandeira    – Isso! Muito bom!

Gringo       – Agora Thomaz já conhece Be – re – ni – ce. Quer namorar Thomaz?

P.Bandeira    – Calma! Você é apressadinho, hein?

Gringo            – Apressadinho?

P.Bandeira      – É!… Rápido!

Gringo            – É que você ser muito bonita!

P.Bandeira    – Assim eu fico com vergonha!

Gringo            – É verdade!

A PORTA-BANDEIRA SE ABANA COM A MÃO. O GRINGO, A ASSOPRA.

P.Bandeira   – Ai que ventinho bom!… Tô com uma sede!

Gringo            – Sede?

P.Bandeira   – (APONTANDO O DEDO PARA BOCA) Beber!

Gringo            – Off course! Você quer um bebida?

P.Bandeira    – Quero sim!

Gringo            – Esperar. Vou pegar. Pode ser um cerveja?

P.Bandeira    – Claro!

O GRINGO LEVANTA E SAI DE CENA. A BATERIA RECOMEÇA A TOCAR, AINDA DE FORMA CADENCIADA. O MESTRE SALA  ENTRA  E SE  SENTA  MESA COM A PORTA-BANDEIRA.

Mestre Sala   – E o Gringo, já foi?

P.Bandeira    – Foi buscar uma cerva!

Mestre Sala   – Já vai começar o ensaio. Vamo ou não vamo?

P.Bandeira     – Deixa eu tomar essa cerva com o Gringo, vai?

Mestre Sala    – Tu e essa mania de Gringo. Um dia tu vai se dar mal!

P.Bandeira    – Que nada! Um dia eu vou me dar muito bem, isso sim! Arrumo um Gringo e vou ser madame na Europa.

Mestre Sala  – Isso já era, Berê! Os Gringo agora tão invadindo o país atrás de arrumar mulher pra transar e só!

P.Bandeira    – Não fala bobagem!

Mestre Sala  – Tu não vê televisão, não usa internet? Cheio de notícia de Gringo que vem aqui só pra pegar mulher.

O GRINGO ENTRA COM UMA GARRAFA DE CERVEJA E DOIS COPOS.

P.Bandeira – Olha o Gringo, aí! Vai, vai! Avisa pra segurar um pouco o ensaio.

Mestre Sala  – Depois não diz que não te avisei?

O GRINGO CHEGA À MESA.

Gringo            – Oh! Não pegar copo para o dançarino!

Mestre Sala  – Não precisa, não, Gringo! Tô saindo

O MESTRE SALA SAI DE CENA E FAZ UM GESTO PARA QUE A PORTA-BANDEIRA TOME CUIDADO.

Gringo            – Vocês não dançar mais?

P.Bandeira    – Sim! mas primeiro vou tomar essa cerva contigo.

ELA PEGA A GARRAFA E SERVE OS COPOS.

P.Bandeira    – Um brinde!

Gringo            – Um brinde!

OS DOIS FAZEM TIM-TIM COM OS COPOS.

Gringo            –  Mas pra quê brinde?

P.Bandeira   – Ao nosso encontro.

Gringo            – Yes! Bom!

OS DOIS REPETEM O BRINDE. A BATERIA AUMENTA O RITMO. A PORTA-BANDEIRA E O GRINGO SE LEVANTAM. ELA SAMBA PROVOCANTE PARA ELE. A BATERIA PARA. O GRINGO APLAUDE A PORTA-BANDEIRA.

Gringo            – Beautiful! Wonderful!

P.Bandeira   – Obrigado!

Gringo            – Você quer namorar?

P.Bandeira   – A gente acabou de se conhecer.

Gringo            – Eu estar apaixonado. I love you, Be – re – ni – ce!

P.Bandeira      – Ai, que lindo! Mas a gente precisa se conhecer.

Gringo            – Nós já conhecemos. I, Thomaz, you, Be – re – ni – ce!

P.Bandeira   – A gente precisa conversar mais.

Gringo            – Então, nós conversa in all night.

P.Bandeira   – What?

Gringo            – Eu conversa a noite toda com você.

P.Bandeira   – Não sei.

Gringo            – Why? Eu ser feio?

P.Bandeira   – Nãããão! Você é lindo!

Gringo            – Então,você ser meu namorada?

P.Bandeira   – Quando eu acabar o ensaio, a gente conversa melhor, ok?

Gringo            – Ok!

A BATERIA RECOMEÇA, CADENCIADA.

Gringo            – Eu precisar ir ao banheiro?

P.Bandeira   – (APONTA PARA UM DOS LADOS DO PALCO) Vai até aquela casa. É a sede da nossa Escola. O banheiro fica lá.

O GRINGO SAI DE CENA. A PORTA-BANDEIRA VAI ATÉ A MESA ONDE ESTAVA E PEGA A BANDEIRA. ENTRA O MESTRE SALA. OS DOIS COMEÇAM A SAMBAR NA CADÊNCIA DO SAMBA.

Mestre Sala   – E o Gringo?

P.Bandeira    – Foi no banheiro.

Mestre Sala   – Tu tá dando muita corda pra esse gringo!

P.Bandeira      – Ih, qualé? Tu não é nada meu pra ficar no meu pé!

Mestre Sala     – Só to te dando um toque.

P.Bandeira      – Não preciso de toque nenhum!

Mestre Sala     – Tu fica achando que só tem gringo bom? Tem não!

P.Bandeira      – Tu que é PM e tá com paranoia!

Mestre Sala     – Não é paranoia, não!

P.Bandeira      – Chega desse papo, Picolé? Qualé?

Mestre Sala     – É que tu ainda é muito menina!

P.Bandeira      – Ih! Eu sei me virar, viu?

Mestre Sala     – Mas, cuidado com o Gringo! Depois não diz que não te avisei!

P.Bandeira    – Tá bom, Picolé: Agora a gente dança e ninguém se mete na vida do outro, combinado?

Mestre Sala     – Só queria que tu se ligasse na parada.

P.Bandeira      – Tá, Picolé, já ouvi! Parece meu pai! Que saco!

Mestre Sala     – Esses gringo são cheio de conversinha.

P.Bandeira      – Tu tá um pé no saco! Já deu, Picolé! Vamô dançar, vamô?

Mestre Sala     – Mas, se liga, hein?

P.Bandeira      – Que saco, Picolé!

A PORTA-BANDEIRA PARA DE DANÇAR E VAI ATÉ A MESA, ENCOSTA A BANDEIRA NUMA CADEIRA E SE SENTA. A BATERIA COMEÇA ACELERAR O RITMO. O MESTRE SALA VAI ATÉ A PORTA-BANDEIRA. A BATERIA FAZ UMA PARADA.

Mestre Sala   – Tá certo, Berê, não vou falar mais nada! Vamô pro ensaio, vai?  É  a última passada.

P.Bandeira      – Não quero mais saber de  tu me enchendo, hein?

Mestre Sala     – Tá certo!

A BATERIA RECOMEÇA. A PORTA-BANDEIRA PEGA A BANDEIRA E SEGUE AO CENTRO DO PALCO COM O MESTRE SALA. O GRINGO ENTRA EM CENA. A BATERIA ACELERA O RITMO. PORTA-BANDEIRA E MESTRE SALA COMEÇAM A BAILAR PELO PALCO. O GRINGO, SAMBA DESENGONÇADO. O CASAL ENCERRA SUA APRESENTAÇÃO. A BATERIA PARA.

Gringo            – Uhhhh! Beautiful! Beautiful! Linda! Você dançar muito bom! Congra-tulation!

O MESTRE SALA E A PORTA BANDEIRA FAZEM REVERÊNCIA PARA O FUNDO DO PALCO, PARA FRENTE DO PALCO E PARA O GRINGO.

Mestre Sala  – Valeu! (PARA A PORTA-BANDEIRA) Quer uma carona, Berê?

P.Bandeira    – Brigado, Picolé! Vou ficar por aqui ainda.

Gringo            – Pode deixar, eu levar Be – rê!

Mestre Sala   – Então tá certo.

O MESTRE SALA DÁ UM BEIJO NO ROSTO DA PORTA-BANDEIRA E CUMPRIMENTA O GRINGO.

Mestre Sala   – (PARA A PORTA-BANDEIRA) Cuidado, hein?

O MESTRE SALA SAI DE CENA. LUZ CAI EM RESISTÊNCIA, DANDO IMPRESSÃO DE UMA RUA MAL ILUMINADA. O GRINGO AGARRA A PORTA-BANDEIRA A FORÇA.

P.Bandeira    – Que isso?

O GRINGO COMEÇA A ALISAR O CORPO DA PORTA-BANDEIRA.

P.Bandeira    – Para, Thomaz! Não é nada disso!

Gringo            – Eu saber que brasileira quer!

P.Bandeira    – Não, Thomaz!

Gringo            – Brasileira fica provocando Thomaz…

P.Bandeira    – Para, Thomaz! Não faz assim!

Gringo            – Eu querer namorar!

P.Bandeira    – Namorar não é isso!

O GRINGO VAI PRENDENDO AINDA MAIS A PORTA-BANDEIRA.

P.Bandeira    – Para, senão eu vou gritar!

Gringo            – Espera que você vai gritar de prazer!

P.Bandeira    – Não!

O GRINGO RASGA A PARTE DE CIMA DO VESTIDO DA PORTA-BANDEIRA.

P.Bandeira    – Socorro! Alguém me ajuda!

O GRINGO DÁ UM TAPA NO ROSTO DA PORTA-BANDEIRA.

Gringo            – Shut up! Eu saber que brasileira gosta disso!

P.Bandeira    – Não faz isso, Thomaz!

O GRINGO LEVANTA A PARTE DE BAIXO DO VESTIDO DA PORTA-BANDEIRA E ARREIA AS SUAS CALÇAS. ENTRA O MESTRE SALA.

Mestre Sala   – (SACANDO UMA ARMA) Perdeu, Gringo, perdeu!

O GRINGO TENTA SE RECOMPOR.

Mestre Sala   – Agora tu fica quietinho!

Gringo            – You don’t touch me! You don’t touch me!

Mestre Sala   – Cala a boca, seu porco! No chão!

A PORTA-BANDEIRA TENTA SE RECOMPOR. ELA SE AGACHA E CHORA..

Gringo            – Eu trabalhar no Consulado!

Mestre Sala   – O cacete com o Consulado! No chão! Tô mandando!

Gringo            – Eu querer telefone!

Mestre Sala – Tu querer porra nenhuma! (ENGATILHANDO A ARMA) Deita no chão. Agora!

O GRINGO DEITA NO CHÃO. O MESTRE SALA O IMOBILIZA.

Gringo            – Eu vai processar vocês!

Mestre Sala – Agora levanta comigo. Na delegacia tu conta isso tudo pro delegado. (PARA A PORTA-BANDEIRA) Tudo bem contigo?

A PORTA-BANDEIRA, TENTANDO ESCONDER OS SEIOS, SE LEVANTA.

P.Bandeira    – (CHOROSA) Tudo bem!

Mestre Sala   – Eu te avisei, não te avisei?

Gringo            – Eu vai processar! It is absurd!

Mestre Sala   – Cala essa boca!

P.Bandeira    – (COM VERGONHA) Obrigado, Picolé!

Mestre Sala   – (PARA A PORTA-BANDEIRA) Agora vem comigo que depois te deixo em casa.

O MESTRE SALA SAI DE CENA ARRASTANDO O GRINGO A FORÇA. A PORTA-BANDEIRA SE AJOELHA COMO QUEM FAZ UMA ORAÇÃO. A LUZ SE APAGA.

- FIM-


TELHADO DE VIDRO

setembro 14, 2013

CENÁRIO: SALÃO DE BELEZA.

DUAS MULHERES ESTÃO UMA AO LADO DA OUTRA. SENTADAS, COM AS CABEÇAS EM SECADORES DE CABELOS.

Mulher 1        – Sabe, minha irmã, tenho um assunto muito importante para te falar.

Mulher 2        – Ih, hoje não tenho tempo para os seus problemas!

Mulher 1        – Só que é um assunto sério!

Mulher 2        – Já falei que não quero saber dos seus problemas hoje. Esqueceu que minha filha chega hoje?

Mulher 1        – Então!….

Mulher 2        – Então, nada!

Mulher 1        – Mas eu preciso te contar uma coisa.

Mulher 2        – Hoje não quero saber de nada! Já te falei!

Mulher 1        – Mas é importante!

A MULHER 2 TIRA A CABEÇA PARA FORA DO SECADOR.

Mulher 2        – Minha filha vai voltar pra casa depois de estudar quatro anos fora e vou poder matar toda minha saudade! Então, hoje não estou pra ninguém!

A MULHER 1 TAMBÉM TIRA A CABEÇA PARA FORA DO SECADOR.

Mulher 1        – Eu sei disso, mas é que…

Mulher 2        – Mas, nada!

A MULHER 2 VOLTA A COLOCAR A CABEÇA DENTRO DO SECADOR.

Mulher 2        – E tem mais! Ela ainda vai trazer o namorado dela para gente conhecer.

Mulher 1        – Então, é sobre o namorado dela!

A MULHER 2 VOLTA A COLOCAR A CABEÇA PARA FORA DO SECADOR.

Mulher 2        – O que é quem tem?

Mulher 1        – Eu queria de contar que o namorado dela não pode ser o que você espera.

Mulher 2        – Eu não acredito que você está com inveja da minha filha!

A MULHER 1 COLOCA A CABEÇA PARA FORA DO SECADOR.

Mulher 1        – Não inveja, nada! É que…

A MULHER 2 VOLTA A COLOCAR A CABEÇA DENTRO DO SECADOR.

Mulher 2        – Tá bom, minha irmã! Agora vamos mudar de assunto, que daqui a pouco você vai tá chorando a tua falta de homem.

A MULHER 1 VOLTA A COLOCAR A CABEÇA DENTRO DO SECADOR.

Mulher 1        – Quer saber? É melhor eu não me meter mesmo!

Mulher 2        – É melhor mesmo!

Mulher 1        – Eu tentei.

A MULHER 2 SAI DO SECADOR.

Mulher 2        – Você a filha da Adelaide?

A MULHER 1 TAMBÉM SAI DO SECADOR.

Mulher 1        – O que é que tem?

Mulher 2        – Está namorando com uma mulher!

Mulher 1        – E daí?

Mulher 2        – E daí?

Mulher 1        – Qual o problema?

Mulher 2        – Qual o problema?

Mulher 1        – É!

Mulher 2        – Mulher com mulher?

Mulher 1        – Mulher com mulher!

Mulher 2        – Eu não aceito!

A MULHER 1 VOLTA AO SECADOR E COLOCA A CABEÇA DENTRO.

Mulher 1        – E se o namorado na sua filha fosse uma mulher?

Mulher 2        – Que mulher, o quê!

Mulher 1        – E por que não?

Mulher 2        – Porque não, ora!!

A MULHER 2 VOLTA E COLOCA A CABEÇA DENTRO DO SECADOR.

Mulher 1        – Você tem que para com esse seu preconceito.

Mulher 2        – Não é preconceito!

Mulher 1        – É o quê?

Mulher 2        – Só não acho certo.

Mulher 1        – O que não é certo?

A MULHER 2 COLOCA A CABEÇA PARA FORA DO SECADOR.

Mulher 2        – Mulher com mulher, ora!

A MULHER 1 COLOCA A CABEÇA PARA FORA DO SECADOR.

Mulher 1        – Você tem medo que os vizinhos façam como você, né?

Mulher 2        – Eu não tenho medo! Tenho certezas!

A MULHER 2 VOLTA A COLOCAR A CABEÇA DENTRO DO SECADOR.

Mulher 1        – Mas acho que você precisa rever suas certezas!

A MULHER 1 VOLTA A COLOCAR A CABEÇA DENTRO DO SECADOR.

Mulher 2        – Acho bom a gente mudar de assunto.

Mulher 1        – Mas você precisa se preparar, porque…

Mulher 2        – Quer para com essa conversa!

Mulher 1        – Falar da filha dos outros, pode?

Mulher 2        – Eu falei alguma mentira?

A MULHER 2 SE LEVANTA.

Mulher 2        – Eu não gosto, não entendo e não aceito, duas mulheres juntas! É minha opinião, e pronto!

A MULHER 1 TAMBÉM SE LEVANTA.

Mulher 1        – Mas você precisa se preparar.

Mulher 2        – Isso é coisa desta sua cabeça poluída!

Mulher 1        – Não e, minha Irmã! Antes fosse!

Mulher 2        – Chega desse assunto! Você já me aborreceu demais por hoje!

TOCA O CELULAR DA MULHER 2.

Mulher 2        – Filha?… Tudo bem!… Estou morrendo de saudades!… Que horas vocês chegam?… As nove?… Vou fazer aquelas panquecas… Está me enviando uma foto para eu conhecer o amor da sua vida?… Manda, filha! Manda que eu quero esfregar o bonitão na cara da sua tia recalcada!… Te amo!

A MULHER 2  DESLIGA O CELULAR. SOM DE MENSAGEM DE CELULAR.

Mulher 2        – Agora vou esfregar essa foto na sua cara!

Mulher 1        – Acho melhor você se sentar antes de ver a foto.

A MULHER OLHA O CELULAR.

Mulher 2        – É uma mulher!

A MULHER 2 DESABA NA CADEIRA.

Mulher 1        – Não! É o amor da vida dela!.

A MULHER 1 ABRAÇA A MULHER 2, QUE CHORA.

- FIM -


ENTREVISTA DE EMPREGO

maio 3, 2013

CENÁRIO: SALA DE UMA CASA SIMPLES. UMA MULHER DE ROUPAS SIMPLES ESTÁ EM CENA. FALA AO TELEFONE.

MULHER 1 – Olha aqui Cerso, já num guento mais essas criança… Se a proposta de trabalho fô boa, vo voltá a trabalhá!… É isso mesmo!… Intão dispois nós conversa.. É…

OUVE-SE PALMAS.

MULHER 1 – Agora vo desligá qui tem gente batendo na porta!…  Vê se vem direto pra casa, hein?… (GRITANDO) Um minuto!…To de olho em você!…   Tchau! (GRITANDO) Pode entrá!

ENTRA UMA MULHER, BEM VESTIDA, COM ROUPAS DE MARCAS.

MULHER 2 – Dá licença.

MULHER 1 – Que a senhora qué?

MULHER 2 – Eu vim para entrevista.

MULHER 1 – Ah, a entrevista!… Tinha até isquecido.

A MULHER 1 EMPURRA A MULHER 2 QUE SE DESEQUILIBRA E CAI NO SOFÁ.

MULHER 1 – Intão a senhora é candidata a minha patroa?

MULHER 2 – É  

A MULHER 2 TENTA SE LEVANTAR DO SOFÁ, MAS A MULHER 1 A EMPURRA DE VOLTA.

MULHER 1- A senhora senta que eu priciso fazê umas pregunta pra senhora!

A MULHER 2 CAI DE VOLTA NO SOFÁ.

MULHER 1 – A senhora pricisa intendê que não dá pra gente aceitar qualquer patroa, néw

MULHER 2 – Claro!… Tudo bem!… Eu entendo sim!… Pode perguntar o que a senhora quiser.

MULHER 1 – Intão vamo lá! Pro que a senhora qué uma empregada?

MULHER 2 – Eu trabalho fora o dia todo e estou precisando muito de uma pessoa que cuide da minha casa.

MULHER 1 – Sei…

MULHER 2 – Eu estou precisando muito!

MULHER 1 – Essa é a conversa de toda patroa, mas na hora agá, foge do pau.

MULHER 2 – Mas eu não sou dessas, não! Eu sou de confiança!

MULHER 1 – Toda patroa diz isso!

A MULHER 2 SE LEVANTA.

MULHER 2 – Mas eu sou diferente.

MULHER 1 – Diferente… Sei… Intão, qual minhas vantagem?

MULHER 2 – Eu dou carteira assinada, quarenta e quatro horas semanais, pago horas extra, fundo de garantia, previdência social, vale transporte, uniforme.

MULHER 1 – Uniforme eu não uso.

MULHER 2 – Tudo bem… Eu deixo trabalhar sem uniforme.

MULHER 1 – E tem outra coisa: Eu gosto de trabalhá ouvindo música.

MULHER 2 – Pode ouvir música, não tem problema.

MULHER 1 – Sertanejo?

MULHER 2 – Não tem importância.

MULHER 1 – Pagode?

MULHER 2 – Também pode.

MULHER 1 – E funk?

MULHER 2 – Pode ouvir a música que você quiser, pois a maioria do tempo você vai estar sozinha em casa.

MULHER 1 – To gostando da senhora! Vem cá, senta aqui!

A MULHER A PUXA A MULHER 2, QUE CAI NO SOFÁ.

MULHER 1 – Carteira assinada, todos os direitos, não preciso usar uniforme, posso ouvia as minha música… E quanto é o salário?

MULHER 2 – No momento eu não posso pagar muito, pois acabamos de comprar um apartamento novo, trocamos o carro, não sei se você me entende? Posso lhe chamar de você, não posso?

MULHER 1 – Claro!

MULHER 2 – Talvez, conforme o tempo passe, eu possa lhe pagar um pouco mais?

MULHER 1 – E quando é esse pouco?

MULHER 2 – Um salário mínimo.

A MULHER 1 SE LEVANTA DO SOFÁ.

MULHER 1 – Um salário mínimo?

MULHER 2 – Eu sei é pouco, mas queria muito que você analisasse todo o pacote que estou lhe oferecendo.

MULHER 1 – Sei… Intão vamo fazê assim: A senhora mi deixa o curríco que eu vô conversá com o Cerso e dispois ligo pra sinhora.

A MULHER 2 LEVANTA, PUXA DE SUA BOLSA O SEU CURRÍCULO E ENTREGA A MULHER 1.

MULHER 2 – Vou torcer que você me escolher.

MULHER 1 – Quem sabe?

A MULHER 2 SE DESPEDE E SAI DE CENA. A MULHER 1 RASGA O CURRÍCULO DEIXADO PELA MULHER 2.

MULHER 1 – Mão de vaca!… É cada candidata de patroa que me parece por aqui, viu? Miséria por miséria, prefiro ficá com a que tenho! Franquivaldo!… Sanderlaine! Vão tomá banho que nóis vai no Méc Dôneldis!…

A MULHER 1 SAI DE CENA. FECHAM-SE AS CORTINAS.

                                                            – FIM -


SUPERSTIÇÃO? EU NÃO!

fevereiro 8, 2013

CENÁRIO: UM PONTO DE ÔNIBUS.

UM HOMEM, DE CHAPÉU, USANDO UM SOBRETUDO, LÊ UM LIVRO. UM OUTRO SE APROXIMA.

Homem 2 – Você sabe se o 515 já passou?

O HOMEM 1, SEM DESVIAR-SE DA LEITURA, APENAS BALANÇA A CABEÇA QUE NÃO E VOLTA A LER.

Homem 2 – Será que vai demorar? Não gostou de ficar na rua em noite de dia treze!

O HOMEM 1 TIRA OS OLHOS DA LEITURA E OS LANÇA SOBRE O OUTRO. DEPOIS BALANÇA A CABEÇA NEGATIVAMENTE E VOLTA A LER.

Homem 2 – Sabe o quê é? Não é que eu seja supersticioso, não, viu? Muito pelo contrário, mas sabe como é, né? Não se pode duvidar.

O HOMEM 1 REPETE O GESTO NEGATIVO COM A CABEÇA SEM TIRAR OS OLHOS DO LIVRO.

Homem 2 – Não sei se você conhece aquele ditado: No creo en brujas, pero que las hay, lãs hay!

Homem 1 – (SEM TIRAR OSOLHOS DA LEITURA) Acho melhor o amigo pegar um táxi!

Homem 2 – Quem me dera, meu amigo, quem me dera! Sou pobre professor, não tenho dinheiro para esses luxos.

O HOMEM 2 OLHA PARA OS LADOS.

Homem 2 – Você está aqui muito tempo?

O HOMEM 1 FAZ COM A CABEÇA, POSITIVAMENTE, SEM TIRAR OS OLHOS DO LIVRO. OUVE-SE UM MIADO DE GATO.

Homem 2 – (PREOCUPADO) Olha aí, escutou? Dizem que a noite, todos os gatos são pardos! Mas se for um gato preto? Ninguém vê, né? (RI TENTANDO DISFARÇAR O MEDO).

Homem 1 – (SEM TIRAR OS OLHOS DO LIVRO) O amigo é muito supersticio-so, hein?

O HOMEM 2 ANDA DE UM LADO PARA O OUTRO NO PONTO.

Homem 2 – Não é superstição! É cuidado!

Homem 1 – (SEM TIRAR OS OLHOS DO LIVRO) Sei!

Homem 2 – É verdade!

Homem 1 – (SEM TIRAR OS OLHOS DO LIVRO) Acredito.

Homem 2 – Eu não sou dado há essas crendices populares, não!

Homem 1 – (SEM TIRAR OS OLHOS DOLIVRO) Se o amigo diz!

Homem 2 – Sou apenas um pouco precavido. Se eu posso passar por fora da escada, por que vou passar embaixo dela? Agora me diz: Que mal tem bater na madeira três vezes? Usar pé de coelho de chaveiro, tem problema?

O HOMEM 1 SEM TIRAR OS OLHOS DO LIVRO, APENAS BALANÇA A CABEÇA QUE NÃO.

Homem 2 – Eu até confesso que tenho umas manias, mas, quem não tem? Vai dizer que o amigo não tem sua camisa preferida? A gente precisa ajudar a sorte. É verdade, ou não é? Superstição é outra coisa!

O HOMEM 1 NÃO TIRA OS OLHOS DO LIVRO. O HOMEM 2 SE MOSTRA BEM AFLITO.

Homem 2 – Esse ônibus que não chega!

O HOMEM 2 TIRA DE DENTRO DA CAMISA UMA CORENTINHA E COMEÇA A BEIJAR A MEDALINHA PENDURADA. FALA BAIXINHO, FEITO LADAINHA. TEM OS OLHOS FECHADO. O HOMEM 1 FECHA O LIVRO.

Homem 1 – O amigo acredita no azar?

Homem 2 – (AINDA DE OLHOS FECHADOS) Que azar o quê! Azar não existe!

Homem 1 – E se eu lhe disser que azar existe, o amigo acredita?

Homem 2 – (AINDA DE OLHOS FECHADOS) Claro que não!

O HOMEM 2, SEM ABRIR OS OLHOS, TIRA DO BOLSO UM TREVO DE QUATRO FOLHAS, AMARRADO NUMA FIGA E COMEÇA A REZAR.

Homem 1 – Mas devia acreditar!

Homem 2 – (ABRINDO OS OLHOS) Por que o amigo está dizendo isso?

Homem 1 – Porque o 515 acabou de passar!

Homem 2 – É mentira!

Homem 1 – Olha ele lá, ó!

O HOMEM 1 APONTA PARA UMA DIREÇÃO. O HOMEM 2 SAI CORRENDO NA DIREÇÃO APONTADA. O HOMEM 1 SE VIRA DE COSTAS E SAI UIVANDO.

- FIM -


E AÍ, SEU GÊNIO?

junho 12, 2012

Em cena, um homem de meia idade, sentado no proscênio, tem uma corda amarrada no pescoço.

HOMEM – Não adianta! Não adianta!… Coragem, homem! Pula logo e acaba com essa vida miserável! Coragem!

O HOMEM SE LEVANTA, ANDA PELA CENA ATRÁS DE ALGO PARA AMAR-RAR A CORDA E TROPEÇA EM UMA GARRAFA.

HOMEM – Droga! É tanto lixo nesta droga de cidade que nem pra se matar um homem pode!

O HOMEM PEGA A GARRAFA.

HOMEM – Olha só isso: uma garrafa!

O HOMEM SACODE A GARRAFA.

HOMEM – Droga! Tá vazia! Bem que podia tá cheia! Assim eu aproveitava e tomava mais um pouco de coragem!

O HOMEM JOGA A GARRAFA, UMA NUVEM DE FUMAÇA ENCHE A CENA.

HOMEM – Que isso?

DA FUMAÇA, SURGE UM HOMEM VESTIDO DE GÊNIO.

GÊNIO – Obrigado por me libertar da garrafa, agora, o amigo tem direito a fazer três pedidos.

HOMEM – O quê?:

GÊNIO – Três pedidos! Qualé, tu nunca ouvi falar nas histórias de gênios?

HOMEM – Isso é uma alucinação! Deve ser efeito de tanto remédio e tanta bebida que misturei arrumando coragem pra me matar!

GÊNIO – E aí, mané? Vai ficar aí parado ou vai fazer logo os seus pedidos?

HOMEM – Quer dizer que você é um gênio?

GÊNIO – Um legítimo representante da classe dos gênios das lâmpadas mara-vilhosas! Taqui o meu cartão!

O HOMEM PEGA O CARTÃO QUE O GÊNIO LHE ENTREGA.

HOMEM – (LENDO O CARTÃO) Adamastor, o gênio! Trago o seu amor em três horas, tiro olho gordo, faço banho de descarrego, faço amarração, simpatia pra tudo de ruim na sua vida! Faça agora mesmo o seu pedido! Aliás, três pedidos!

GÊNIO – É isso! Serviço garantido! Pode pedir!

O HOMEM TIRA A CORDA DO PESCOÇO E A JOGA NO CHÃO.

HOMEM – Então tá certo! Quer dizer que posso pedir o que quiser?

GÊNIO – Pode!

HOMEM – Então, vamos lá!

GÊNIO – Mas pense bem, pois pedido feito é pedido atendido!

HOMEM – É qualquer coisa mesmo?

GÊNIO – Qualquer coisa! Aliás, três coisas! Tu tem direito a três desejos!

O HOMEM ANDA PELA CENA, PENSATIVO.

GÊNIO – Como que é? Eu não tenho o dia todo!

HOMEM – Calma aí! São só três pedidos, não posso errar!

O HOMEM CONTINUA ANDANDO. O GÊNIO PEGA A CORDA E COLOCA NO SEU PESCOÇO.

HOMEM – Seu gênio, posso pedir qualquer coisa?

GÊNIO – Já não falei que pode?

HOMEM – Então vou fazer o primeiro pedido.

GÊNIO – Manda!

HOMEM – Eu quero que você me dê coragem!

GÊNIO – É pra já!

O GÊNIO BATE PALMAS E DÁ UM ASSOPRO EM DIREÇÃO AO HOMEM.

GÊNIO – Pronto! Agora tu é o cabra mais macho desta terra!

HOMEM – Já to me sentido bem corajoso!

GÊNIO – Então, agora manda outro!

O HOMEM ANDA DE NOVO PELA CENA.

HOMEM – Um outro pedido… um outro pedido… Já sei!

GÊNIO – Vê se capricha, hein?

HOMEM – Eu quero ter muita força!

GÊNIO – É pra já!

O GÊNIO BATE PALMAS E DÁ UM ASSOPRO EM DIREÇÃO AO HOMEM.

GÊNIO – Agora você é o homem mais forte do mundo!

O HOMEM FAZ POSE DE FORTÃO. MOSTRA OS BÍCIPS.

HOMEM – É, já estou me sentido bem mais forte!

GÊNIO – Agora vê se capricha, porque é teu último pedido.

HOMEM – Deixa eu pensar!

O HOMEM ANDA PELA CENA.

GÊNIO – E aí, como é que é? Qual o seu terceiro pedido?

O HOMEM SE COLOCA NA FRENTE NO GÊNIO, LHE ARRANCA A CORDA DO PESCOÇO E LHE ACERTA UM SOCO. O GÊNIO DESABA, DESA-CORDADO.  O HOMEM PEGA A CORDA, A COLOCA EM SEU PESCOÇO E SE COLOCA EM PÉ NO PROSCÊNIO.

HOMEM – Eu não consigo nem concretizar um desejo, aí vem um maluco dizendo que é um gênio e me diz que vai me realizar três pedidos? Será que nem me matar em paz eu posso?

O GÊNIO SE LEVANTA.

GÊNIO – Teu desejo é uma ordem!

O GÊNIO BATE PALMAS E DÁ UM ASSOPRO EM DIREÇÃO DO HOMEM. A MÃO DO HOMEM GRUDA NA CORDA E ELE VAI APERTANDO A CORDA, MAIS, MAIS E MAIS.

HOMEM – (Quase sem ar) Socorro!!.. E aí, seu gênio, não vai me ajudar?

GÊNIO – Não posso fazer mais nada, o Mané aí já fez os três pedidos!

HOMEM – (Já de joelhos) Socorro!… Eu vou morrer!! Me ajuda!!

GÊNIO – Pediu, o Gênio realizou!

O HOMEM FAZ MÍMICAS PEDINDO QUE O GÊNIO LHE AJUDE, VAI TENTANDO SOLTAR A CORDA DO PESCOÇO.

GÊNIO – Agora preciso ir. Bye, bye… Manézão!

O GÊNIO BATE PALMAS, UMA NUVEM DE FUMAÇA ENCHE A CENA. O HOMEM CAI ESTIRADO NO CHÃO. BLACK-OUT.

FIM


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