HOJE VOU BRINCAR DE SER FELIZ

dezembro 13, 2014

CENÁRIO: QUARTO DE MENINA. ALGUMAS ALMOFADAS, UM DIÁRIO E UM TELEFONE CELULAR, TUDO COMBINANDO. AO FUNDO DO PALCO, UMA JANELA QUE MOSTRA UMA VISTA DA CIDADE. NO CENTRO, UMA ENORME CAIXA DE MÚSICA.

AO ABRIR AS CORTINAS, FOCO NA CAIXA DE MÚSICA ONDE ESTÁ NINA, VESTIDA DE BAILARINA, RODANDO AO SOM DE UMA VALSA.

NINA  – Nina,

              A pequenina do papai,

              A princesinha do lugar,

              Que se nega a crescer.

              Nina,

              A menina da mamãe,

              A alegria deste lar,

              Que não quer crescer.

              Vou ficar assim,

              Qual a bailarina

              Nessa caixinha de música,

              Para sempre protegida.

              Isso não vai ter um fim,

              Serei sempre a menina

              Vivendo de forma lúdica,

              As aventuras dessa vida.

              Nina!… Nina!… Nina!…

A MÚSICA VAI PARANDO COMO ESTIVESSE ACABANDO A CORDA DA CAIXA DE MÚSICA. TOCA O CELULAR. NINA DESCE DA CAIXA.

NINA  – (ATENDENDO O CELULAR) Alô!… Sei!… Sei!… Tá bom!

NINA DESLIGA O CELULAR.

NINA  – Mamãe!… Mamãe!… Acho que fiquei sozinha! Será que não é perigoso? Dizem que meninas como eu não podem ficar sozinha? Papai diz que o mundo tá mundo perigoso! Ele acha que eu não sei! Eu já falei pra ele que eu cresci, mas acho que ele não acredita! Eu pergunto para minha mamãe: Por que eu não posso sair? Todas as minhas amigas já podem sair sozinha, não sei por que eu não posso? Antes mesmo da mamãe responder, papai atravessa e diz: – Você ainda é uma menina, não é a hora?… Ele  fecha  a  cara  e logo manda uma bronca: Vê se desliga essa televisão e vai dormir!… Eles acham que não sei das coisas! Sei muito bem!… Eles que não conseguem enxergar que eu tô crescendo!

NINA PEGA O SEU DIÁRIO.

NINA  – Querido diário, hoje é um dia muito importante para mim. Hoje finalmente sou igual às minhas amigas. Isso mesmo! Pois, elas todas me achavam diferente, principalmente a Belinha (IMITANDO BELINHA) Não acredito que você ainda não menstruou? Papai sempre diz que ainda sou menina, por que eu já tinha que ter menstruado?… Mas, hoje vou me vingar dela! Ela vai ver só!… Sabe diário, vou te confessar uma coisa. Eu tenho medo desta mudança toda que está acontecendo dentro de mim. Às vezes, me sinto um monstro! Mamãe falou que menina é uma lagarta que vira borboleta, mas dói tanto!… Será que vai ser assim todo mês? E se for?… Acho que não vou querer isso, não!…

NINA SOLTA O DIÁRIO E CORRE PARA A CAIXA DE MÚSICA. COMEÇA RODAR AO SOM DE UMA VALSA.

NINA  – Nina,

              A pequenina do papai,

              A princesinha do lugar,

              Já começou a crescer.

              Nina,

              A menina da mamãe,

              A alegria deste lar,

              Uma mulher a florescer.

              Nina!… Nina!… Nina!…

A MÚSICA VAI TERMINADO COMO SE TIVESSE ACABADO A CORDA DA CAIXINHA. NINA DESCE.

NINA  – Mamãe!… Mamãe!… Já sou mocinha!… Será que papai não vai gostar mais de mim?… (IMITANDO A MÃE) Quando você crescer, precisa prestar muita atenção, porque homem não presta, minha filha, não presta! Mas, papai faz tudo pra mim!… Não entendo, mamãe!… Todas as minhas amigas já beijaram na boca, menos eu!… Será que sou feia?… Papai diz que sou sua princesinha!…  Acho  que deve ser porque os garotos acham que eu ainda sua criança! Papai acha!…  Eles acham que eu não sei das coisas!… Sei muito bem!…

NINA CORRE ATÉ A JANELA, ACENA PARA ALGUÉM. VOLTA E PEGA NOVAMENTE O DIÁRIO.

NINA  – Diário, você sempre entendeu os meus problemas, não é mesmo? Cada pedacinho da minha vida eu deixei registrado em você!… Mas, vou te confessar uma coisa. Teve muita coisa que eu não te contei!… E acho que daqui pra frente, vai ser assim! Não fica bem, uma mocinha como eu, contando o meus segredos pra você!… Até agora você foi leal, mas, que você cisme que eu te abandonei, e acaba entregando minha vida pra todo mundo? Acho que essa mudança mexeu comigo de verdade!… Papai vai ter de aceitar que eu cresci!… Será que ele vai ficar bravo comigo?… E se ficar?… Não quero que papai fique bravo comigo!…

NINA CORRE PARA CAIXINHA DE MÚSICA. COMEÇA A RODAR AO SOM DE UMA VALSA.

NINA  – Nina,

              A pequenina do papai

              Nina,

              A menina da mamãe

              Nina!… Nina!… Nina!…

A MÚSICA VAI TERMINANDO. NINA DESCE DA CAIXA DE MÚSICA.

Nina   – Papai!… Mamãe!… Eles insistem em não querer me ouvir!… Então não vai ter jeito!… Vou ter que mostrar que a princesinha do papai, cresceu! Que a menina da mamãe, já não é mais tão menina assim!… (TOCA O CELULAR) Alô!… Sou eu! Claro que tá tudo certo!… Deixa o papai e mamãe comigo!… Que vai ser um choque!… Isso acontece com todo menina!… Ou eles achavam que comigo iria ser diferente?… Claro que tenho certeza!… Cinco minutos!…

NINA DESLIGA O CELULAR E PEGA O DIÁRIO.

Nina   – Olha aqui diário, vou escrever isso aqui, mas não é pra ficar espalhando, viu?… Principalmente pra mamãe! Pro papai então, nem pensar!… Olha lá, hein? Vou confiar em você!… Posso confiar? Então lá vai!… Diário, a princesinha do papai, conheceu um garoto, ele vem buscar pra gente sair… Ele disse que vai me beijar na boca!… Confesso que eu tô tremendo… Ele diz que quer namorar comigo!… Quero só ver a cara da Belinha, quando ela me ver com ele!… Sabe, diário! Eu gostava daquela vida de criança, mas, a vida é assim mesmo!… Minha mãe fala, fala, fala, mas ele também teve que crescer!… E meu pai então? Se minha mãe não tivesse crescido, eu jamais estaria aqui!… Eles acham que eu não sei das coisas!… Sei muito bem!…

NINA VAI ATÉ A JANELA.

NINA  – Já tô descendo!…

NINA SOBE NA CAIXA DE MÚSICA.  COMEÇA A RODAR AO SOM DE UMA VALSA.

NINA  – Nina!… Nina!… Nina!…

BLACK OUT. FOCO NA CAIXINHA DE MÚSICA VAZIA, SOBRE ELA, AS ROUPAS DE BAILARINA. A MÚSICA VAI TERMINANDO.

APAGUAM-SE AS LUZES. FECHAM-SE AS CORTINAS.

                                                           – FIM –  


É QUESTÃO DE EDUCAÇÃO

outubro 17, 2014

CENÁRIO: UMA MESA, ATRÁS DA MESA, UMA CADEIRA E NA FRENTE, DUAS. NAS LATERAIS, ESTANTES COM LIVROS. EM CIMA DA MESA, UMA PLACA: DIRETORA

EM CENA, UMA MULHER ESTÁ SENTADA, FAZ ALGUMAS ANOTAÇÕES. ENTRA UM CASAL, ELE, COM CABELOS COMPRIDOS E BARBAS LONGAS, APARÊNCIA RUDE E ROUPAS RASGADAS E ELA, COM CABELOS PINTADOS DE VERDE, PIERCINGS E MUITAS TATUAGENS PELO CORPO.

Homem – (COM VOZ FORTE) Dá licença!

Diretora – (SEM LEVANTAR OS OLHOS) Pode sentar.

Mulher   – É que a gente veio matriculá nosso pivete!

Diretora – (SEM LEVANTAR OS OLHOS) Já vou atender. Só um minuto.

O HOMEM E A MULHER ANDAM PELA CENA. ELES EXAMINAM OS LIVROS NAS ESTANTES, CADA UM DE UM LADO.

Diretora – Pronto. Desculpem, precisava terminar o novo regulamento da escola. Vocês? O que vocês querem aqui?

Homem – (COM VOZ FORTE) A gente qué matriculá nosso pivete aqui.

Diretora – Mas vocês…

Mulher – A gente não é um casal assim… certinho!

Diretora – Não é isso! É que…

Homem – (COM VOZ FORTE) Então, dá pra matriculá o pivete?

Mulher – (PARA O HOMEM) Sem grosseria, meu!

Diretora – Então quer dizer que vocês querem matricular o filho de vocês em nossa escola?

Homem – É isso aí!

Mulher  – O pivete não ta fácil!

Diretora – Entendo.

Homem – O muleque não obedece ninguém.

Mulher – Então falaram que essa escola resolve tudo.

Diretora – Vocês fizeram a escolha certa. Sentem!

Mulher   – E vocês não mesmo jeito no muleque?

OS DOIS SE SENTAM.

Diretora – A nossa escola ensina o que há de mais moderno na pedagogia. Aqui nossas crianças são tratadas e formadas para fazerem deste país, um verdadeiro paraíso.

Mulher – E a dona aí acha mesmo que esse método funciona?

Homem – Porque também tem o seguinte: a gente qué acalmar o muleque, mas não qué que ele vire um mulherzinha. A dona entende, né?

A DIRETORA SE LEVANTA.

Diretora – Não se preocupem. Aqui pensamos em todos esses detalhes e respeitamos a opção sexual de cada um. Se seu filho quiser ser mulherzinha, não vai sofrer nenhuma discriminação! Aqui nossos alunos são educados para serem organizados, gentis, prestativos e compreensivos com seu semelhante.

Homem – (PARA MULHER) Que conversa é essa de quê se meu filho quiser virar mulherzinha?

Mulher – (PARA O HOMEM) Fica quieto e não atrapalha. Deixa a dona termina! Tu não sabe nada dessas coisas da vida moderna. Eu to sabendo das paradas. O negócio agora é ser politicamente correto. Não é mesmo, diretora?

Diretora – É isso mesmo minha querida! E aqui na nossa instituição, seu filho vai aprender tudo para se tornar uma pessoa politicamente correta.

Homem – To achando esse papo meio torto!

Mulher – Gente maluca como a gente, hoje ta por fora. Tem que abrir a cabeça!

A DIRETORA VOLTA A SE SENTAR.

Diretora – Vou explicar direitinho pra vocês a nossa metodologia de ensino. Usando como base a pedagogia do empirismo, realizamos os exercícios do politicamente correto até que a criança chegue à exaustão e, então, entenda, que se não for politicamente correta, não poderá ir ao banheiro, não poderá comer o lanche, não poderá brincar no parque e não poderá permanecer no pátio enquanto as outras crianças estiverem no recreio.

Homem – Ih… então isso não vai dá pro pivete, não!

Mulher – É!… A gente já fez essa parada de não deixá ele fazê as coisa, mas não rolo não.

Diretora – É que falta exemplo. Aqui, o filho de vocês vai aprender que menino deve levantar a tábua quando for fazer xixi e abaixá-la depois que acabar. Vai aprender que não pode coçar o saco, nem arrotar em hipótese nenhuma. Que não deve maltratar nenhum bichinho indefeso e acima de tudo, que para conseguir arrumar uma linda namorada, vai ter que ser um bom moço.

O HOMEM SE LEVANTA.

Homem – Rá! Isso eu quero vê!

Mulher – Senta, meu!

O HOMEM SE SENTA.

Mulher – E quem é que faz essas parada?

Diretora – Temos professores que são verdadeiros exemplos de como ser politicamente correto. Aqui o filho de vocês vai se tornar o mais belo exemplar de bom moço. Tenho certeza que o politicamente correto vai transformar até a vida de vocês. Podem apostar! E então, vamos matricular o filho de vocês?

Mulher – (PARA O HOMEM) E aí, o que tu acha da parada?

O HOMEM SE LEVANTA.

Homem – Tu que sabe. Tu que invento essa novidade!

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher – A gente precisa acalmar aquele pequeno terrorista.

Homem – Se tu acha que é melhor…

Diretora – Vocês não vão se arrepender. Em dois tempos o filho de vocês estará um lorde.

Homem – Ih!

Mulher – Então ta certo. Pode matriculá o pivete!

Diretora – Vocês estão fazendo a escolha certa.

A DIRETORA SE DESPEDE DOS DOIS. OS DOIS VÃO EM DIREÇÃO À SAÍDA.

Homem – (PARA A MULHER) Mas escuta só, se o pivete virar um nerd afeminado, cheio de não me toque, tu que vai segurá a bronca. Morô!

OS DOIS SAEM DE CENA. A DIRETORA VOLTA À MESA E COMEÇA A ASSINAR ALGUNS DOCUMENTOS. UM OBJETO É JOGADO EM CENA, EM SEGUIDA, UMA EXPLOSÃO.

Diretora – (GRITANDO) Suas pestes! Vou trancar todo mundo no banheiro! Inspetora! Inspetora!

A LUZ VAI CAINDO EM RESISTÊNCIA.

APAGAM-SE AS LUZES. FECHAM-SE AS CORTINAS.



NÃO TÁ FÁCIL PRA NINGUÉM

junho 13, 2014

CENÁRIO: UMA SALA

EM CENA, NO CENTRO DO PALCO, UMA MACA. NA FRENTE DA MACA, UMA MULHER USANDO UM JALECO ESTÁ SENTADA EM UMA CADEIRA. AO LADO DA MACA, UM “BANNER”: MASSAGEM ANTIESTRESSE – 01 HORA – R$ 20,00

Mulher – Já estamos no meio da semana e só fiz duas massagens, meu Deus, por favor, manda alguém pra mim, porque o negócio aqui está preto! Me ajuda, meu Deus, me ajuda!

ENTRA UM HOMEM.

Homem – Dá licença?

A MULHER SE LEVANTA.

Mulher – (ERGUENDO AS MÃOS PARA O ALTO) Obrigado, meu Deus! O senhor não me falha.
Homem – Eu sei…
Mulher – Hãn?
Homem – É aqui a massagem?
Mulher – Claro! Vamos aliviar essa tensão?
Homem – É para isso que vim!
Mulher – Então vamos lá. O moço pode se deitar na maca.

O HOMEM SE DEITA NA MACA.

Mulher – De bruços, por favor!
Homem – Claro! Sei que você é muito boa nisso.
Mulher – Como você sabe?
Homem – Eu conheço a sua fama.
Mulher – Eu?… Famosa?…
Homem – Muito.
Mulher – Se eu fosse tão famosa assim, não precisava pedir para Deus me ajudar a toda hora.

A MULHER COMEÇA A FAZER MASSAGEM NAS COSTAS DO HOMEM.

Homem – Isso é verdade! Às vezes você exagera um pouco.
Mulher – O quê?
Homem – Você pede muito, como todo mundo! Todo mundo pede ajuda pra Deus! Um estresse!
Mulher – Como você sabe que eu peço muito?
Homem – Depois a gente conversa, agora faz o seu trabalho para que eu possa fazer o meu. Eu estou precisando relaxar.
Mulher – O moço tem uma conversa engraçada.
Homem – Você tem mãos de massagista mesmo!
Mulher – E o moço está realmente muito travado. Cheio de nódulos. Muita tensão. Isso é estresse!
Homem – Eu sei, minha filha, estou a beira de um ataque de nervos.
Mulher – O moço trabalha no quê?
Homem – Digamos que eu trabalhe com milagres.
Mulher – Milagres?
Homem – Isso.
Mulher – O moço é padre?
Homem – Mais ou menos.
Mulher – Pastor?
Homem – Mais ou menos.
Mulher – Então é Pai de Santo!
Homem – Digamos que eu seja tudo isso.
Mulher – Como assim?
Homem – Depois… Continue… Você está fazendo um bom trabalho.

A MULHER COMEÇA A MASSAGEAR OS PÉS DO HOMEM.

Homem – Nossa, que delícia! Melhor do que andar sobre o mar.
Mulher – O moço está bem?
Homem – Estou melhorando.
Mulher – Tem muita tensão, precisa relaxar.
Homem – Relaxar… Mas é difícil! Toda hora tem alguém me pedindo o impossível! É só problema e quanto mais problema, mas as pessoas me chamam. Nem eu estando em todos os lugares ao mesmo tempo, tenho dado conta de tanto pedido! Assim vou explodir!
Mulher – O moço fala como se fosse…
Homem – Deus?
Mulher – É!
Homem – É porque eu sou Deus, então tenho que falar como Deus.
Mulher – Isso é alguma brincadeira? É pegadinha?
Homem – Por isso ando tão estressado! Você mesmo estava aí agora me pedindo para te ajudar, é mentira? E como ando muito estressando, precisando de uma boa massagem, pensei: Por que não ajudar? Então estou aqui.
Mulher – Isso não é verdade.
Homem – Claro que é!

A MULHER PARA DE FAZER A MASSAGEM.

Homem – Por que você parou? Agora que eu estava me sentindo melhor!
Mulher – Peraí!

A MULHER PEGA NO BOLSO DO JALECO SEU CELULAR.

Mulher – Então, já que você é Deus, vamos tirar uma foto que eu vou postar no meu perfil. Meu facebook vai bombar!
Homem – Não, não faz isso!
Mulher – Faço sim! Vamos ver até onde vai essa brincadeira!
Homem – Não é brincadeira!

A MULHER COLA O ROSTO NO HOMEM E TIRA A FOTO.

Mulher – Agora sim. Depois que todo ficar sabendo que Deus está fazendo massagem comigo, minha vida vai mudar pra melhor.
Homem – E a minha pra pior!
Mulher – Pronto. Agora é só esperar.
Homem – Eu não vou agüentar!

EM “OFF” COMEÇAM A SURGIR VÁRIOS PEDIDOS A DEUS.

“AÍ, DEUS, DÁ UM PULINHO AQUI NA MINHA OFICINA!”
“DEUS, DÁ UMA CHEGADA AQUI NO MEU RESTAURANTE!”
“MEU DEUS, ESTOU PRECISANDO DE UNS TROCADOS…”
“POR FAVOR, DEUS, MEU NEGÓCIO ESTÁ FALINDO, DÁ UM PULINHO POR AQUI”
“DEUS, SOCORRO, ME ARRUMA UM EMPREGO AÍ”
“DEUS, ME AJUDA A ARRUMAR UM MARIDO!”
“DEUS, ME AJUDA A ARRUMAR UMA MULHER!”
“DEUS, ME AJUDA A PASSAR DE ANO!”
“DEUS, QUERO FICAR RICO!”
“DEUS, VOCÊ É UM GATO!”

NA MACA, O HOMEM COMEÇA A ESTREBUCHAR. A MULHER ENTRA EM DESESPERO.

Mulher – Que isso, Deus? Para com isso, moço!!

OS PEDIDO EM “OFF” VÃO SE REPETINDO. A MULHER FAZ UMA LIGAÇÃO NO CELULAR.

Mulher – Alô?… É da Emergência?… Por favor, preciso de uma ambulância urgente!,,, É urgente!… Deus está morrendo na minha maca!

O HOMEM CONTINUA ESTREBUCHANDO NA MACA, ENQUANTO OS PEDIDOS EM “OFF” VÃO SE REPETINDO. A LUZ VAI CAINDO EM RESISTÊNCIA. FECHAM-SE AS CORTINAS.

                                              – FIM -


CONTRATA-SE JUSTICEIRO

maio 16, 2014

EM CENA, UMA MULHER, VESTIDA COM ROUPAS PROVOCANTES, SENTADA EM UMA POLTRONA, RETOCA A MAQUIAGEM EM UM ESPELHO DE MÃO. ENTRA UM HOMEM.

Homem – Dá licença!
Mulher – (SEM OLHAR O HOMEM) O que você deseja?
Homem – Vim por causa do anúncio.
Mulher – (SEM OLHAR O HOMEM) Tem experiência?
Homem – Tenho sim senhora!
Mulher – (SEM OLHAR O HOMEM) Tem referências?

O HOMEM TIRA DO BOLSO UM JORNAL TODO AMASSADO.

Homem – Tenho aqui, ó!

A MULHER GUARDA A MAQUIAGEM, SE LEVANTA, APANHA O JORNAL E O LÊ

Mulher – Quer dizer que o seu negócio é fazer justiça com as próprias mãos?
Homem – É que eu sou justo, dona!
Mulher – Sei…
Homem – Já que a polícia não dá conta de tanta injustiça, nós é obrigado a tomar a frente, né mesmo?
Mulher – Quer dizer que basta eu dizer que alguém foi injusto comigo que…
Homem – Olhe, dona, já não fale mais que já to sentindo ódio.
Mulher – E se for mentira?
Homem – Se a senhora me jura que é verdade, pronto, já me basta!

A MULHER DOBRA O JORNAL E ENTREGA PARA O HOMEM.

Mulher – Acho que você é a pessoa certa.
Homem – A senhora manda, que eu mando o cabra pros quintos dos infernos sem dó!
Mulher – Mas, o trabalho não é nada fácil.
Homem – Não escolho trabalho não, viu dona?
Mulher – O senhor faz todo tipo de trabalho, mesmo?
Homem – Se é pra fazer justiça, não falo, não!

A MULHER SE SENTA NA POLTRONA.

Homem – A dona me fala quem é o cabra, que eu vô até os quinto dos infernos pra pegar o cabrunco!
Mulher – O homem tem medo da morte?
Homem – Tenho não!
Mulher – Mas, se o homem morrer?
Homem – Isso não acontece. Tenho o corpo fechado.
Mulher – Interessante.
Homem – Então, dona, qual é o serviço?

A MULHER SE LEVANTA, RODEIA O HOMEM. SUSSURA EM SEU OUVIDO.

Mulher – Eu quero que você me mate.

O HOMEM SE ASSUSTA E SE AFASTA DA MULHER.

Mulher – Eu quero que você me mate!
Homem – Que isso, dona? Não mato o contratante.
Mulher – Se você não me matar, eu te mato.
Homem – A dona tá de brincadeira?
Mulher – Chegou a hora de você acertar as suas mortes.
Homem – Que conversa é essa, dona?
Mulher – Você não é justiceiro?
Homem – Tenho isso no sangue.
Mulher – Eu também sou.
Homem – Que brincadeira é essa, dona?

A MULHER VOLTA A RODEAR O HOMEM E SUSSURRA EM SEU OUVIDO.

Mulher – Eu sou a morte!

O HOMEM SE ASSUSTA, FAZ O SINAL DA CRUZ.

Mulher – Eu sou a morte!
Homem – Que morte o quê?
Mulher – Você nunca ouviu dizer que a morte não é tão feia quanto pintam?
Homem – Isso só pode ser coisa do capeta.
Mulher – E então justiceiro: Vai me matar, ou prefere morrer?
Homem – Sai pra lá, satanás!
Mulher – Se não matar a morte, a morte te mata, justiceiro!

O HOMEM SACA DA CINTURA, UM REVOLVER. A MULHER SE APROXIMA DO HOMEM.

Mulher – Que justiceiro mais covarde que me apareceu por aqui!
Homem – Eu vou atirar.
Mulher – Não vai! O homem não é de nada!
Homem – Mais um passo e eu atiro no meio da sua testa, dona!
Mulher – Agora, eu é que vou te matar, justiceiro!

O HOMEM ENGATILHA A ARMA. A MULHER ABRAÇA O HOMEM E LHE DÁ UM BEIJO NA BOCA. O HOMEM CAI DESFALECIDO NO CHÃO. A MULHER SE SENTA NA POLTRONA E RETOCA A MAQUIAGEM COM UM ESPELHO DE MÃO.

                                                             – FIM -


MARIA SUBMISSA

março 28, 2014

NO BANHEIRO DE UM SHOPPING, DUAS MULHERES, UMA COM UM VESTIDO FLORIDO, MAIS DISCRETA, RETOCA O CONTORNO DOS OLHOS E A OUTRA COM SHORTS JEANS, BLUSA DECOTADA, RETOCA OS LÁBIOS VERMELHO CARMIM.

Maria 1 – Maria?
Maria 2 – Maria?
Maria 1 – Quanto tempo, hein?
Maria 2 – Abafa o caso, amiga! Senão a gente acaba entregando a idade.
Maria 1 – Já casou?
Maria 2 – Eu não! Quero isso pra mim, não! E você?
Maria 1 – Casei sim.
Maria 2 – Então me conta: É boa a vida de casada?
Maria 1 – Às vezes.
Maria 2 – Se é só às vezes, então separa logo, ué!
Maria 1 – Que separar o quê! Eu amo meu marido!
Maria 2 – Mas, você está dizendo que é só às vezes, ora!
Maria 1 – É que tem dia que não é bom!
Maria 2 – Não vai dizer que ele te bate? Te bate?
Maria 1 – Só quando eu estou errada.
Maria 2 – O quê?
Maria 1 – Agora já não tenho errado tanto.
Maria 2 – Eu não acredito!
Maria 1 – Mas ele tinha razão quando fazia isso.
Maria 2 – Para, Maria! Vamos agora denunciar esse escroto!
Maria 1 – Ei, não fala assim do meu marido. Você nem conhece ele.
Maria 2 – Mas, Maria, você não pode se submeter a isso!
Maria 1 – É como diz o ditado: Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher!
Maria 2 – Eu não acredito que estou ouvindo isso.
Maria 1 – Foi por dar ouvidos a esses pensamentos aí, que eu quase me separei do meu marido.
Maria 2 – Você já devia ter separada há anos! Apanhando, Maria?
Maria 1 – Agora ele já não tem batido mais.
Maria 2 – E por que você quase se separou do seu marido, hein?
Maria 1 – Descobri que ele me traiu.
Maria 2 – E você não fez nada?
Maria 1 – Eu quase me separei dele.
Maria 2 – Por que não se separou, Maria?
Maria 1 – Porque minha mãe é que estava certa.
Maria 2 – Traição não tem perdão, Maria!
Maria 1 – Mas a culpa não foi dele.
Maria 2 – Ãhn?
Maria 1 – Eu tinha acabado de ter neném, estava na quarentena, ele lá, cheio de necessidade. Tinha que resolver a necessidade com alguém. Resolveu com a secretária.
Maria 2 – Não acredito no que estou ouvindo.
Maria 1 – Minha mãe conversou comigo e me disse: Filha, foi só uma vez! E eu acabei entendendo a atitude dele. Afinal, homens têm as suas necessidades, não é mesmo? Aí tive que perdoar! Ainda bem!
Maria 2 – Mulher também tem suas necessidades e nem por isso…
Maria 1 – É diferente, Maria!
Maria 2 – Maria, você não precisa dele! Se livra desse homem!
Maria 1 – Mas, também, hoje em dia a mulherada anda quase pelada por aí. Fica provocando. Aí, não tem homem que resiste.
Maria 2 – Meu Deus, eu não estou ouvindo isso!

TOCA O CELULAR DA MARIA 1.

Maria 1 – Alô!… Oi, meu amor… Não, não… Já estou saindo!… É que… Tá bom!… É que estava cheio o banheiro!… Calma, não precisa ficar nervoso. Já to saindo!… Beijo.

ELA DESLIGA O CELULAR.

Maria 1 – Bom, vou ter de ir. Meu amor me espera!
Maria 2 – Deixa esse homem, Maria!
Maria 1 – Jogar fora a minha felicidade? Aqui ó!
Maria 2 – Você está acabando com a sua vida.
Maria 1 – Você fala isso porque não casou. Se não, concordava comigo.
Maria 2 – Jamé!
Maria 1 – E vê se toma cuidado! Se você passar vestida desse jeito na frente do meu marido e ele te pegar, a culpa vai ser toda tua, viu?

A MULHER 1 PASSA A MÃO NOS CABELOS, SE OLHA DO ESPELHO DÁ UM ACENO À AMIGA E SAI DO BANHEIRO.

Maria 2 – Não acredito! Será que eu sonhei tudo isso? Não pode, em pleno século XXI, ter mulher assim tão submissa!

ELA SE VOLTA PARA O ESPELHO E RETOCA NOVAMENTE OS LÁBIOS VERMELHO CARMIM.

Maria 2 – Mas, pensando bem? O mundo está cheio delas, sim! Tem mulher até que se satisfaz como amante! Coitada delas! Eu, hein? Eu sou mulher!
ELA AJEITA O CABELO, PASSA O DEDO PELOS LÁBIOS E SAI.

                                               – FIM -


NEM TUDO SÃO FLORES

fevereiro 21, 2014

CENÁRIO: UMA DELEGACIA.

EM CENA, O DELEGADO E DONA LEONOR.

Delegado   – Então, Dona Leonor, a senhora vai entregar seus comparsas, ou não?

Da.Leonor  – Eu não sei , doutor, eu não sei!

O DELEGADO BATE NA MESA E SE LEVANTA.

Delegado    – (RESPIRANDO FUNDO) Dona Leonor, a senhora foi presa em flagrante. Como a senhora me diz que não sabe nada? Eu tô tendo a maior paciência do mundo porque a senhora podia ser minha mãe, mas já estou com ela por um fio!

Da.Leonor  – Mas, seu delegado, eu já disse tudo que eu sabia. Eu conhecia a Lorena da internet e aí a gente ficou amigas. Ela era tão carinhosa comigo! Aí, ela me convidou para um chá e eu pensei: Por que não?  Ela foi até a minha casa pra me pegar de carro!

Delegado     – Dona Leonor, Dona Leonor!…

Da.Leonor  – É verdade, seu delegado! O que aconteceu foi que antes da gente tomar o chá, ela pediu que fosse com ela no banco Que mal podia haver nisso? E quando chegamos no banco, ela se encontrou com três amigos lá dentro e quando eu percebi aconteceu o assalto, ela e os amigos saíram correndo e chegou a polícia e me prendeu.

Delegado     – A senhora ainda quer que eu acredita nessa história?

Da.Leonor   – E por que não? O senhor acha que estou mentindo?

MARIA CLARA ENTRA EM CENA.

Maria Clara  – Mamãe! Mamãe! Que a senhora aprontou dessa vez?

Da.Leonor   – Eu não fiz nada, minha filha! Eu só fui tomar um chá com uma amiga!

Delegado      – A senhora participou de um assalto à banco, Dona Leonor!

Maria Clara  – Assalta à banco, mamãe?

Da.Leonor    – Eu já disse que não assaltei banco nenhum.

Delegado     – Vamos fazer o seguinte, Dona Leonor: Vou tomar um café e vou deixar a senhora com a sua filha. Mas, acho bom que quando eu voltar, eu saiba de toda a verdade, entendido?

Da.Leonor    – Mas, eu já falei a verdade, seu delegado!

Maria Clara  – Quer me explicar essa história direito, mamãe?

Delegado       – Converse com sua filha. Eu vou tomar um café e já volto.

O DELEGADO SAI DE CENA.

Maria Clara  – O que aconteceu, mamãe?

Da.Leonor     – Lembrou que tem mãe!

Maria Clara   – Sem drama, mamãe, sem drama!

Da.Leonor     – Só aparece pra me vê quando acontece alguma coisa, né?

Maria Clara  – E nos últimos tempos a senhora tem me dado muitos motivos para aparecer, não é mesmo?

Da.Leonor     – Não sei o que você está falando.

Maria Clara – É melhor deixar pra lá, que hoje a senhora já passou do limite.

Da.Leonor     – Mas, eu não fiz nada! Eu não fiz nada!

Maria Clara   – Então, será que dá pra me explicar?

Da.Leonor      – Só que para de brigar comigo que já tô nervosa!

Maria Clara  – Tudo bem, mamãe! Agora me conta: como a senhora veio parar aqui.

Da.Leonor     – Sabe aquela minha amiga da internet?

Maria Clara   – Amiga da internet? Que amiga?

Da.Leonor    – Eu já te falei! Aquela bonitinha que eu te mostrei aquele dia que você foi lá em casa.

Maria Clara   – Que bonitinha, mamãe?

Da.Leonor     – Você não se lembra que eu te mostrei as fotos daquele passei lá de Águas de Lindóia?

Maria Clara   – Aquele passeio não foi do grupo da melhor idade, mamãe?

Da.Leonor     – Mas eu convidei ela e ela foi comigo.

Mara Clara    – Mamãe, mamãe!

Da.Leonor     – Todo mundo perguntava se ela era minha filha! Como ela era carinhosa comigo! Não me deixou sozinha uma única vez!

Maria Clara   – E como é o nome dessa bonitinha?

Da.Leonor     – O nome dela é Lorena.

Maria Clara   – Mas como a senhora conheceu ela?

Da.Leonor     – Ela pediu pra ser minha amiga na internet e aí eu aceitei.

Maria Clara   – Mamãe, mamãe!

Da.Leonor     – Todo dia ela me mandava uma mensagem bonita!

Maria Clara   – E a senhora não sabe onde ela mora?

Da.Leonor     – Não, não sei!

Maria Clara   – Quantas vezes eu lhe avisei para ter cuidado na internet.

Da.Leonor     – O que é quem tem fazer amigos na internet?

Maria Clara   – O que dá? Dá nisso, ó! A senhora aqui, na delegacia, acusada de um crime!

Da.Leonor      – Mas eu já disse que não fiz nada!

Maria Clara   – Quero ver convencer o delegado disso?

Da.Leonor     – (CHORANDO) Como eu ia saber? Isso é culpa sua!

Maria Clara   – Culpa minha?

Da.Leonor     – Você ás vezes esquece que tem mãe.

Maria Clara   – Ora, mamãe, faça-me um favor!

Da.Leonor     – (ENXUGANDO AS LÁGRIMAS) É verdade!

Maria Clara  – A senhora sabe o sacrifício que tenho que fazer depois que me separei de Otávio! Dou aula em duas escolas e ainda tenho meus três filhos pra cuidar. E sempre quero levar a senhora para ficar com a gente lá em casa, mas a senhora quase nunca vai.

Da.Leonor  – Eu tenho casa, sabia? Tenho minhas coisas! Gosto de conversar com os meus amigos.

Maria Clara   – Amigos como essa Lorena? Tô vendo!

Da.Leonor    – São meus amigos, sim! Quando eu estou triste, eles estão lá pra me alegrar! Quando eu estou me sentindo sozinha, é com eles que desabafo! Quando a depressão ataca, é com eles que me recupero. Eles são meus amigos, sim! Eles gostam mais de mim do que você!

Maria Clara   – Que absurdo, mamãe!

Da.Leonor   – A gente fica velha e os filhos fogem da gente, é isso que acontece!

Maria Clara   – Olha, mamãe, vou fazer de conta que não ouvi nada disso!

Da.Leonor     – Mas é a mais pura verdade! Você só lembra da mãe, quando precisa de dinheiro! Quando quer comprar alguma coisa no cartão! Você nunca fez uma visita sem interesse.

Maria Clara   – Que absurdo, mamãe!

Da.Leonor  – E não quero mais falar com você. Seu delegado! Seu delegado!

Maria Clara   – Acho melhor a senhora se controlar. Olha a pressão!

Da.Leonor     – Seu delegado!

Maria Clara   – Para com isso, mamãe!

Da.Leonor     – Seu delegado! Seu delegado!

MARIA CLARA PEGA DONA LEONOR PELO BRAÇO.

Da.Leonor     – Me solta!

MARIA CLARA LARGA DONA LEONOR.

Maria Clara   – Senta que vou pegar um copo d’água pra senhora.

DONA LEONOR SE SENTA E COMEÇA A CHORAR. MARIA CLARA PEGA UM COPO D’ÁGUA NA MESINHA AO LADO DA MESA DO DELEGADO E DÁ PARA DONA LEONOR.

Maria Clara   – Toma, mamãe! Agora fica calma que a gente vai dar um jeito nisso.

DONA LEONOR, COM AS MÃOS TREMULAS, BEBE A ÁGUA. O DELEGADO ENTRA.

Delegado        – E então, Da.Leonor, vai entregar seus comparsas, ou não!

DONA LEONOR NÃO LEVANTA A CABEÇA, CONTINUA A BEBER A ÁGUA.

Maria Clara   – Seu delegado! O que aconteceu foi que a minha mãe acabou sendo vítima de uma bandida! Ela não teve nada com o assalto.

Delegado        – Só que ela não tem como provar. Tem, Dona Leonor?

Da.Leonor  – No meu facebook! Lá tem todas as mensagens que ela mandou. Tem as fotos… O senhor pode entrar no perfil dela também.

Delegado        – Facebook? Então me mostra.

O DELEGADO FAZ DONA LEONOR SENTAR EM SEU LUGAR E A DEIXA MEXER NO COMPUTADOR QUE ESTÁ SOBRE SUA MESA.

Da.Leonor      – Aqui o senhor vai ver que eu não tenho nada com isso.

Maria Clara     – Vai, mamãe!

Da.Leonor      – Tem alguma coisa errada!

Delegado        – É, dona Leonor! Assim vai ficar difícil!

Maria Clara    – O que foi, mamãe?

Da.Leonor      – É a senha! Não consigo entrar.

Maria Clara    – Calma mamãe, calma!

Delegado        – Vamos lá, Dona Leonor! Devagar!

Da.Leonor     – Não lembro a minha senha!

Maria Clara   – Quer que eu tente?

Da.Leonor     – Tenta, minha filha!

DONA LEONOR SE LEVANTA E MARIA CLARA VAI PARA O SEU LUGAR.

Maria Clara   – E qual a senha, mamãe?

Da.Leonor     – Peraí! É…

Delegado        – É o seu nascimento? Data do casamento?

Maria Clara    – Diz, mamãe!

Da.Leonor      – Tenta… vinte e quatro, onze, setenta e cinco.

Maria Clara    – Pronto! Entrou!

Delegado        – Agora vamos ver se a gente resolve isso de vez.

Da.Leonor      – Agora clica em amigos. Cadê?… Ela sumiu do meu perfil!

Delegado      – É dona Leonor, assim vou ter que indiciar a senhora! Acho bom a senhora chamar um advogado.

Da.Leonor     – Eu não fiz nada. O senhor acha que eu sou bandida?

Delegado     – Eu não acho nada! O que eu acho é o que todo mundo viu. Que a senhora entrou no banco de braços dados com a tal da Lorena e quando já estava dentro do banco, anunciaram o assalto. Eles fugiram e a senhora acabou ficando pra trás.

Da.Leonor      – Por favor, seu delegado! Acredita em mim!

DONA LEONOR SE SENTA E COMEÇA A CHORAR. MARIA CLARA TENTA ACALMÁ-LA.

Maria Clara   – Calma, mamãe! Vou ligar por meu advogado pra ver se ele pode vir aqui.

Delegado      – Vou deixar a senhora à vontade. Faz sua ligação que eu já volto.

O DELEGADO SAI.

Maria Clara   – Eu vou ligar por doutor Heitor, não sei se ele cuida dessas coisas. Ele está cuidando do meu processo de pensão alimentícia contra o Otávio.

MARIA CLARA LIGA.

Maria Clara     – Está ocupado!… Calma, mamãe!

MARIA CLARA PEGA MAIS UM COPO D’ÁGUA PARA DONA LEONOR.

Maria Clara     – Toma a água, mamãe!

DONA LEONOR PEGA O COPO. TEM AS MÃOS TREMULAS.

Da Leonor      – Eu não sabia, minha filha, eu não sabia que ela era bandida. Era tão boazinha!

Maria Clara     – A gente vai dar um jeito nisso.

MARIA CLARA TENTA DE NOVO COM O TELEFONE.

Maria Clara  – Alô!… É do escritório do doutor Heitor?… Ele está?… Não?… Ele volta?… Viajando?… Obrigado… Não, não precisa! Depois eu ligo! Até logo!

MARIA CLARA DESLIGA O TELEFONE.

Maria Clara     – Doutor Heitor está viajando! E agora?

Da. Leonor     – Será que eu vou ficar presa?

Maria Clara    – Não sei mamãe, não sei!

Da.Leonor      – Tenta o Otávio! Ele sempre gostou de mim. Aposto que vem me ajudar.

Maria Clara    – O Otávio? Nem morta! Com aquele ali e só falo na frente do juiz.

Da.Leonor      – É, acho melhor eu me acostumar com a ideia de dormir por aqui.

Maria Clara   – Agora vai fazer chantagem, mamãe? Eu devia lhe internar num asilo.

Da.Leonor      – Nem morta! Faz isso eu te deserdo!… Dá esse telefone que eu falo com ele.

DONA LEONOR PEGA O TELEFONE DA MÃO DE MARIA CLARA. O DELEGADO ENTRA. DONA LEONOR LIGA.

Da.Leonor      – Você não tem jeito mesmo, hein? Telefone sem crédito.

Maria Clara – Mas tinha, a senhora não viu que eu liguei para o meu advogado?

Delegado        – E então? Falou com o advogado?

Maria Clara   – Meu advogado está viajando.

Delegado        – Vou ter que deixar a senhora essa noite aqui, dona Leonor!

Da.Leonor   – Será que eu posso usar o telefone para falar com o meu genro?

Maria Clara    – Ex, mamãe, ex!

Delegado        – Claro que pode!

Da.Leonor     – Por isso que está sozinha, só pensa em você!

Maria Clara   – Não vou discutir com a senhora, mamãe!

Da.Leonor     – Dá licença.

DONA LEONOR PUXA O TELEFONE E FAZ A LIGAÇÃO.

Da.Leonor    – É pra celular, não faz mal?

Delegado       – Não, dona Leonor!

Maria Clara  – A pessoa envelhece e parece que vira criança, só dá trabalho, só dá trabalho!

Da.Leonor     – Está chamando!

Maria Clara   – Ainda vai me fazer passar vergonha com o Otávio!

Da.Leonor   – Alô!… Eduardo? Não, não é o Eduardo, não!… Não é o Otávio que está falando?… Otávio!… Aqui é a Dona Leonor!… O que eu estou fazendo na delegacia? Como você sabe que eu estou na delegacia?… O delegado?… Você quer falar com ele? (ELA TAMPA O FONE) Ele que falar com o senhor?… Espera aí, Otávio, estou passando o telefone pra ele.

DONA LEONOR PASSA O TELEFONE AO DELEGADO.

Delegado        – Pronto!… Doutor Eduardo falando!

Maria Clara     – O que ele falou?

Da.Leonor      – Falou que queria falar com o delegado.

Delegado        – É você Otávio?

Maria Clara     – Como ele sabia?

Da.Leonor      – Não sei!

Delegado        – Não acredito! Você é o ex-genro da Dona Leonor?… É meu amigo, ela se meteu em uma confusão aqui…Entrou no banco de braços dados com uma assaltante… Eu sei, Otávio, mas você tem que entender minha posição… Você se compromete com isso?… Olha lá, hein?… Não devia fazer isso!… Você sabe, né? Vou fazer isso em sua consideração… Então tá certo!… Prepara a carnê e põe a cerveja pra gelar, que mais tarde estou por aí…. Abração!

O DELEGADO DESLIGA O TELEFONE.

Delegado        – É, dona Leonor, a senhora está com sorte!

Maria Clara   – O que meu ex-marido lhe falou.

Da.Leonor     – Ele vai me ajudar?

Delegado        – Ele já ajudou.

Maria Clara   – Vai mandar um advogado?

Delegado        – Olha só, dona…

Maria Clara   – Maria Clara.

Delegado    – Então, dona Maria Clara, espero que a senhora não fique brava comigo.

Maria Clara   – Eu?

Da.Leonor     – O Otávio vai me ajudar mesmo? Tá vendo, Maria Clara?

Delegado      – Sabe o que é, dona Maria Clara, a feliz coincidência é que o Otávio, seu ex-marido, é o marido da minha irmã.

Maria Clara   – (PARA PLATEIA) Ai que ódio! Mamãe, a senhora me paga!

Da.Leonor      – Não fala nada, Maria Clara, não fala nada!

Delegado       – E em consideração á ele, vou liberar a senhora, Dona Leonor. Não devia, mas vou fazer!

Da.Leonor     – Obrigado, doutor, obrigado!

Delegado        – A senhora deve agradecer ao destino e ao seu ex-genro.

Maria Clara   – Que vergonha, mamãe! Com que cara eu vou olhar o Otávio agora?

Da.Leonor      – Com essa sua cara de sempre, ora!

Delegado        – Mas presta atenção, Dona Leonor: Assim que a gente colocar a mão nessa tal de Lorena, quero a senhora para esclarecer esse caso, ouviu?

Maria Clara    – Pode deixar, senhor delegado, eu me encarrego disso.

Da.Leonor      – Eu não preciso. Sei muito bem cuidar da minha vida!

Maria Clara   – Eu vi mamãe, eu vi! Agora vamos pra casa!

MARIA CLARA TENTA SEGURAR DONA LEONOR PELO BRAÇO.

Da.Leonor     – E me larga que eu vou sozinha!

Maria Clara  – E a senhora para com essa mal criação, senão interno mesmo a senhora num asilo!

Da.Leonor     – Até logo, seu delegado!

O DELEGADO CUMPRIMENTA DONA LEONOR E MARIA CLARA.

Delegado       – E vê se agora toma cuidado com essas amizades da internet, hein?

Da.Leonor   – Pode deixar, seu delegado. Prometo que vou tomar mais cuidado.

MARIA CLARA PEGA NOVAMENTE A MÃE PELO BRAÇO.

Da.Leonor      – E eu já falei, me solta que eu sei andar sozinha.

Maria Clara   – Mamãe, mamãe!

AS DUAS VÃO SAINDO DE CENA, DISCUTINDO.

APAGAM-SE AS LUZES. FECHAM-SE AS CORTINAS.

- FIM -

(ESTE TEXTO FOI SELECIONADO NO 2º.MODELO DO PROJETO “DRAMATURGIAS URGENTES” REALIZADO PELO CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL DE SÃO PAULO EM 2012)


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