Pra quê dramaturgo?

Novembro 17, 2009

Engraçada essa relação entre os atores, diretores e produtores com o dramaturgo, faço um esforço danado pra tentar entender e, ás vezes, finjo até entender, para não parecer antipático. Mas o fato é que: por que será que os direitos do dramaturgo nunca fazem parte do orçamento de um espetáculo?

Uma noite dessas encontrei um colega dramaturgo antes da apresentação de uma peça e não precisou mais do que cinco minutos de prosa para estarmos nos queixando da mesma coisa: a falta do pagamento de nossos direitos autorais.

É um profundo desrespeito para com quem passa horas, dias e noites escrevendo e reescrevendo um texto. É certo, que talvez, muitos não se dêem conta desse detalhe, ou fazem de conta que não sabem da necessidade de se pagar direitos autorais para quem escreve um texto. Ora, um dramaturgo não precisa, não é mesmo?

Até mesmo no circuito amador, onde se luta com dificuldades para colocar um espetáculo em cartaz, se faz necessário um orçamento para discutir gastos com figurinos, cenários, impressos, etc… O que custa incluir neste orçamento a verba do dramaturgo? Ou não é o texto escrito pelo dramaturgo a razão da tal montagem? Isso desanima quem escreve para teatro.

É óbvio que a satisfação de ter um texto escrito por você, montado, não tem preço, mas dramaturgo também tem contas pra pagar. Um esforço e uma consciência maior de atores, diretores e produtores, podia contribuir para diminuir um pouco esse abismo que existe entre o direito de receber e a obrigação de pagar os direitos autorais.

Muito mais se pode fazer para isso, não só apenas o esforço e a consciência de atores, diretores e produtores. Os teatros e as casas de espetáculos onde são apresentadas as peças teatrais, podem servir como fiscais dos direitos, ficando responsáveis pela retenção dos direitos do dramaturgo e os repassando para a SBAT, que se encarregaria de repassar os devidos direitos autorais aos legítimos donos. Uma ação simples e viável.

Um dia, ainda espero que as horas, dias e noites em que passei e passo, escrevendo os meus textos, sejam devidamente recompensadas. Espero também pelo dia em que todo o dramaturgo possa fazer parte do orçamento para montagem de um espetáculo teatral e figurar na planilha dos pagamentos no final de cada borderô. 


A COMIDA DO SANTO

Novembro 10, 2009

NO PALCO, POUCA LUZ, UMA MULHER ENTRA TRAZENDO UMA SACOLA DE PALHA E UMA BOLSA A TIRA-COLO. UM HOMEM, SENTADO EM UM CANTO DA CENA, A OBSERVA.

Mulher            – Ai, meu Deus! O que estou fazendo aqui? Quanta loucura a gente não faz só para prender um homem, hein?… Ai, não acredito!

ELA PÁRA NO CENTRO DO PALCO, OLHA DE UM LADO, DO OUTRO, COMO QUEM PROCURA ALGUÉM, SE AGACHA E COMEÇA TIRAR AS COISAS DA SACOLA.

Mulher            – Vamos acabar logo com isso! Deixa eu conferir a lista.

ELA ABRE A SUA BOLSA E PUXA UM PEDAÇO DE PAPEL. À MEDIDA QUE VAI FALANDO, VAI TIRANDO OS ÍTENS DA SACOLA.

Mulher            – Frango… Ai, que nojo!

E O COLOCA NO CENTRO.

Mulher            – Um litro de cachaça!… Que cheiro forte isso. Não sei como tem gente que bebe! Isso deve queimar tudo por dentro.

A COLOCA AO LADO DO FRANGO.

Mulher            – Sete velas brancas….

VAI COLOCANDO UMA A UMA RODEANDO O FRANGO E A CACHAÇA. O HOMEM SE APROXIMA, ESTÁ MALTRAPILHO.

Homem          – (REPROVANDO) Tshi, tshi, tshi, tshi… Nada disso! Tudo errado!

A MULHER DÁ UM GRITO DE SUSTO.

Mulher            – Por favor, não me faz mal.

Homem          – Calma, dona!

Mulher            – Eu só estou aqui… Não faz nada comigo, por favor.

Homem          – Calma, dona! Tô aqui pra ajudar a senhora. Tô vendo que a senhora é nova neste assunto.

Mulher            – Que assunto?

Homem          – Esse aí, de dar comida pr’o santo.

Mulher            – Que santo?

Homem          – Não precisa ficar com vergonha.

Mulher            – Quem está com vergonha?

Homem          – A senhora, ora!

Mulher            – Eu só estou assustada. Só isso, viu? Já estou até  indo  embora. Afinal, já fiz o que vim fazer. Dá licença.

Homem          – Nada disso! Tá tudo errado isso aí.  

Mulher            – O que é que está errado?

Homem          – O santo não vai resolver o seu problema com essa comida, não!

Mulher            – E o que eu senhor sabe dessa coisa?

Homem          – Tudo!

Mulher            – (FALANDO BAIXO) O senhor é do batuque?

Homem          – Batuque?

Mulher            – É… Batuque… Do… (E COMEÇA A FAZER MOVIMENTO COM AS MÃOS COMO ESTIVESSE DANDO UM PASSE). Que faz essas coisas de…

Homem          – De Macumba?…

Mulher            – (ENVERGONHADA) É!

Homem          – Não! Não acredito nessas coisas de religião, não!

Mulher            – E como você sabe que está errado?

Homem          – É que toda noite vem uma dona como a senhora, fazer uma entrega dessas, aqui.

Mulher            – Verdade?

Homem          – Perfeitamente.

Mulher            – Depois ninguém é macumbeiro nessa terra.

Homem          – É pra amarrar homem, não é?

Mulher            – Como o senhor sabe?

Homem          – Experiência.

Mulher            – E o que está errado?

Homem          – Tudo!

Mulher            – Como assim?

Homem          – Tudo, ora!

Mulher            – (PUXANDO A LISTA) Mas está aqui, ó! Um frango, uma cacha-ça e velas brancas…

Homem          – O problema é qualidade das oferendas. O santo vai reclamar desse jeito. Depois, não adianta se queixar que as coisas não deram certo.

Mulher            – Eu pensei que podia ser qualquer um.

Homem          – Por acaso, a senhora quer um homem qualquer?

Mulher            – Claro que não!

Homem          – Então!…

Mulher            – E o que é que eu faço?

O HOMEM DÁ UMA VOLTA EM TORNO DAS OFERENDAS. PÁRA PENSATIVO.

Mulher            – E. então?

Homem          – Bom… A primeira coisa que tem de ser feita é trocar esse frango.

Mulher            – O que é quem tem o frango?

Homem          – Tá cheio de penas.

Mulher            – (OLHANDO O PAPEL) Mas está aqui… Um frango morto.

Homem          – É a primeira vez que a senhora faz isso, não é?

Mulher            – É!

Homem          – Então… Tem que ser um frango morto, mas não pode ter penas.

Mulher            – É?

Homem          – É! E tem que ser assado.

Mulher            – Assado? Mas onde eu vou encontrar um frango assado uma hora dessas?

Homem          – Ali na esquina tem uma padaria que vende.

Mulher            – Então eu vou lá buscar. Não acredito! Não sei onde eu estava com a cabeça para me submeter a esse vexame.

A MULHER SAI DE CENA.

Homem          – Toda noite é sempre assim! Vou acabar tendo que pedir uma comissão pr’o português da padaria, viu?

O HOMEM PEGA A GARRAFA DA CACHAÇA. TIRA DO BOLSO UM CANIVE-TE E ABRA A GARRAFA. DÁ UM GOLE.

Homem          – Vixe!… Esse é pr’o capeta!…

O HOMEM COLOCA A CACHAÇA NO LUGAR. A MULHER ENTRA TRAZENDO O FRANGO ASSADO.

Mulher            – Pronto! Onde eu coloco?

Homem          – A senhora guarda o outro frango aí e põe esse novo no lugar.

A MULHER MAIS DO QUE DEPRESSA PEGO O OUTRO FRANGO, GUARDA DE NOVO EM SUA SACOLA E COLOCA O FRANGO ASSADO NO LUGAR.

Mulher            – E agora? Está tudo certo?

O HOMEM DA OUTRA VOLTA ENTRE AS OFERENDAS E PÁRA PENSATIVO.

Mulher            – Está faltando mais alguma coisa?

Homem          – Cigarro. Onde tá o cigarro?

Mulher            – (CONSULTANDO A LISTA) Caramba! Tinha que trazer cigarro!

Homem          – É, vai precisar do cigarro.

Mulher            – Espera aí! Acho que tenho um maço fechado na minha bolsa.

A MULHER REVIRA A BOLSA, ATÉ QUE ENCONTRA UM MAÇO DE CIGARRO.

Mulher            – Achei!

Homem          – Deixa eu ver a marca.

Mulher            – E tem isso?

Homem          – O santo é exigente.

Mulher            – (MOSTRANDO O CIGARRO) É de marca. Olha!

Homem          – Tá bom esse!

Mulher            – E agora? Está tudo certo, não está?

O HOMEM NOVAMENTE DÁ UMA VOLTA PELAS OFERENDAS E PÁRA PENSATIVO.

Mulher            – Diz que está certo, moço! Está ficando muito tarde. Preciso ir para casa.

Homem          – Posso fazer uma pergunta pra senhora?

Mulher            – Pode!

Homem          – A senhora quer que esse seu homem seja assim, bem carinhoso? Assim, bem meloso mesmo?

Mulher            – Claro que quero!

Homem          – Então acho que a senhora devia colocar um doce para adoçar a boca do santo.

Mulher            – Um doce?

Homem          – Pode ser um chocolate. A senhora não tem aí na sua bolsa?

Mulher            – Deixa eu ver. Eu sempre tenho um docinho aqui na bolsa.

Homem          – O santo vai ficar muito feliz.

A MULHER REVIRA A BOLSA ATÉ QUE ENCONTRA UM BOMBOM.

Mulher            – (MOSTRANDO O BOMBOM PARA O HOMEM) Serve?

Homem          – Serve!

Mulher            – Agora está tudo certo, não?

Homem          – Agora sim!

Mulher            – Já estou até vendo a hora do meu homem chegar.

Homem          – A senhora põe esse bombom do lado do frango, faz o sinal da cruz e sai sem olhar pra trás.

A MULHER, MAIS DO QUE DEPRESSA, COLOCA O BOMBOM AO LADO DO FRANGO, FAZ O SINAL DA CRUZ E SAI DE CENA SEM OLHAR PRA TRÁS.

Homem          – Tem fé que tudo dá certo, viu?

O HOMEM SE SENTA EM FRENTE ÁS OFERENDAS, ARRANCA UMA COXA DO FRANGO E DÁ UMA BELA MORDIDA. ABRE A GARRAFA DE CACHAÇA E DÁ UMA BELA TALAGADA. COLOCA A GARRAFA NO LUGAR. PEGA UM CIGARRO, TIRA DO BOLSO UM FÓSFORO, O ACENDE E DÁ UMA TRAGADA, SATISFEITO.

Homem          – Isso que é comida de santo. Saravá, meu pai!

 

                                                                                                     FIM

 


É brincando que se aprende

Novembro 3, 2009

Pode parecer que não, mas a maneira descompromissada com que o teatro é levado aos jovens em cursos livres de teatro em várias escolas, onde o clima de brincadeira de imitação é predominante, já que o intuito é passar cultura de uma forma lúdica, deixa marcas profundas em alguns jovens.

Nada pejorativo quando digo: “brincadeira de imitação”, apenas a constatação de que é brincando que se aprende tudo nesta vida. E a forma com que os jovens tomam contato com “fazer teatral” nestes cursos livres, faz com que o teatro faça parte na vida de cada um, ou pelo menos de alguns que se identificam com o “fazer teatral”.

A “peçinha” apresentada no final de ano na escola, mesmo tendo apenas um caráter festivo, com certeza, para alguns, é algo da maior importância, pois desperta neles, a vontade de continuar a trilhar os caminhos de um palco de teatro. A brincadeira ensinou para alguns, como o teatro é maravilhoso.

E já contaminados pelo bichinho do teatro, já não se satisfazem com os espetáculos de final de ano, querem festivais estudantis, mostras de cenas curtas, querem dividir o que aprenderam. E o que começou de brincadeira, já passou a ter um sentido na vida nestes jovens.

Pena que são poucas as escolas que oferecem aos seus alunos a oportunidade de experimentar as maravilhas do “fazer teatral”. Nem todos entendem o quanto é importante incluir cultura na formação dos jovens. A cultura, tal como o esporte, transforma a vida de um jovem.

Mas, como nem tudo na vida é perfeito, resta-nos lamentar com os que não tem essa visão e parabenizar todos àqueles que, ás vezes com muita dificuldade e enfrentando enormes obstáculos, procuram levar um pouco de teatro aos jovens por este país afora.

Pois, brincando é que se aprende e aprendendo que se é capaz de transformar o mundo. E assim, de maneira despretensiosa vai se brincando de ensinar teatro e trazendo cada vez mais jovens para engrandecer o movimento teatral.


Uma arte para poucos

Outubro 26, 2009

Mesmo que muitas pessoas ainda insistam em divulgar o teatro como uma arte popular, parece que cada vez fica mais difícil popularizá-lo. Se o espetáculo não tiver um apelo popular, como por exemplo: se tratar de uma comédia rasgado com a participação de um artista da mídia televisiva, a frequência do público fica restrita a pessoas que militam no meio.

É raro se encontrar uma situação onde o público vai ao encontro do teatro. Ainda mais quando se tem a plena consciência de que a grande mídia não tem lá tanto interesse em divulgá-lo. Quanto mais o tempo passa, mais fica claro que o teatro é uma arte para poucos.

Sem levar em conta a questão dos altos preços cobrados no teatro e tratando única e exclusivamente da questão da arte, por mais lúdica que a magia do teatro possa ser, ela não consegue seduzir o espectador comum, a ponto desde se deslocar de sua casa para ir assistir a um espetáculo, quando este é apresentado por artistas locais ou sem tanto popularidade.

Creio que esta é uma situação consolidada. Teatro, por mais interesse que cause, jamais será uma arte plenamente popular. Mesmo que os jovens nunca se cansem de procurá-lo. E não existem culpados para isso. É apenas uma questão de característica da arte de representar sobre um palco.

Talvez, a postura meio erudita que a imagem do teatro transparece, contribua para afastar e alongar a distância entre o palco e o público, ou talvez não. Mas, a certeza que tenho, é que quanto mais pessoas se aproximam do teatro, mais ele vai se tornando uma arte para poucos. Mesmo que estes poucos pareçam muitos.

A arte efêmera do teatro escapa da percepção do cidadão comum, e são poucos aqueles que não fazendo parte da cadeia produtiva da arte de representar que entendem e se deixam seduzir pela magia do teatro.

E por mais que este quadro não mude, o teatro é e sempre será imortal, pois representar faz parte da natureza humana. Isso tudo nos dá a certeza, que sempre encontraremos alguns poucos interessados, tanto em fazer, como assistir uma peça teatral.


A importância do texto infantil

Outubro 18, 2009

Muito mais do que conter e contar fábulas, um texto infantil para teatro, tem uma função ainda pouco explorada, ou pelo menos, não se vê muita divulgação de sua utilização para esse fim: o de servir como um forte instrumento de apoio pedagógico, auxiliando na educação da criança.

Enfatizar apenas o lado lúdico que o teatro, com toda sua magia, é capaz de passar, é muito pouco para um texto infantil de teatro. Ele pode ser muito melhor explorado, do que ser apenas uma parte de um espetáculo infantil oferecido à criança como passeios em datas festivas.

Utilizar o texto infantil de teatro na sala de aula, servindo-se de suas histórias para trabalhar de maneira mais lúdica, assuntos por vezes difíceis de lidar, até mesmo pela complexidade do tema, a princípio pode parecer que não, mas é sim, um diferencial para a educação infantil.

A pedagogia precisa se ater a esse detalhe, pois o teatro como arte pura e o seu texto infantil utilizados como instrumentos multiplicadores de idéias e, acima de tudo, como facilitadores para trabalhar ações e sentimentos, só tem a acrescentar na melhoria da educação, seja ela de forma informal, ou de forma didática.

Mais e mais fica claro, que não bastam apenas os métodos ortodoxos de educação para ensinar a criança dos dias de hoje, e cada vez mais é preciso se buscar um diferencial para estimular a criança á aprender. E a utilização do texto infantil de um espetáculo teatral caminha neste sentido.

É claro que não é sempre que se pode se utilizar de textos infantis, mesmo porque, ainda são raros, ou de pouco conhecimento, textos que possam servir de fato, como apoio pedagógico. E também, não se deve incorrer no mesmo erro de outrora, forçando a criança a ler vários textos infantis, assim como se fez, e se faz com a literatura, pois assim, corre-se o risco de se obter o efeito contrário.

O texto infantil se faz importante quando ele é usado na medida certa entre o que é lúdico e o que é didático, servindo de estimulo, instigando a investigação, apoiando a pedagogia no dia-a-dia e trazendo para sala de aula, a magia existente no teatro de uma forma natural, para que todos possam usufruir de cada pedacinho da história.


Por quê ser ator?

Outubro 11, 2009

Com o forte investimento que vem sendo feito em dramaturgia pelas grandes redes de televisão, mais e mais pessoas tem procurado cursos de teatro com o intuito de conseguir uma formação mínima que lhes dê condições para disputar uma vaga no concorrido mundo dos atores de televisão. Muitos fazem isso, impulsionados pelo anseio de se tornarem uma celebridade.

Muitos até decidem serem atores por modismo, para fazerem sucesso com as meninas, para passarem imagem de culto e intelectual, para fazerem parte de uma turma legal e acham que a qualquer momento vão ser guindados a um papel de uma telenovela. Não que isso não possa acontecer.

Só que muitos não tem uma resposta clara sobre o porquê querem ser atores. Minto, a maioria sabe sim. Quer ser ator para fazer a novela das nove. A idéia de fama e sucesso contamina de tal forma, que uma cortina de fumaça encobre o rosto e distorce o verdadeiro sentido do que venha a ser um ator e o porquê se tornar um.

É claro que todo mundo tem o direito de fazer da sua vida o que bem entender, mas ao resolver se tornar um ator, esta pessoa precisa ter a consciência e a certeza da sua escolha, pois qualquer celebridade instantânea ou não, pode participar de uma telenovela, mas raramente será um ator.

Quando se resolve se tornar um ator, é preciso entender o porquê desta decisão e ela deve estar pautada, além de uma certeza de vocação, na consciência do papel que o ator tem, de ser um veículo e um instrumento que conta a evolução de uma sociedade, pois é através da interpretação de um ator que a sociedade é vista, revista e reinventada.

Ser ator não é apenas subir no palco, conhecer as teorias de Stanislavski, é preciso ser um investigador da alma humana, dos conflitos sociais, do mundo que nos cerca. É ser um observador do comportamento humano, dos anseios e vontades dos homens do nosso tempo, saber que servirá de filtro para que uma sociedade se reconheça. E, acima de tudo, contribuir para a constante evolução em que vive o ser humano.

Você pode ainda decidir ser ator para crescer como pessoa, entender os seus limites, compreender até que ponto suas ações como cidadão comum, podem interferir num contexto global na sociedade em que você vive. E fazer isso tudo centrifugar dentro de você e devolver tudo em forma de interpretação.

Então, quando você decidir se tornar um ator tem que saber o porquê, pois só assim fará sentido todo o sacrifício que a arte vai lhe impor.


A arte de ser um fingidor

Outubro 4, 2009

Muitos passam anos mentindo sobre si mesmo. Outros passam anos tentando ser o que não são e outros tantos passam anos achando que enganam alguém e não convencem nem a si mesmo. O ser humano vive sempre se enganado, mas só o ator sabe a arte de ser um fingidor.

Só o ator sabe sentir a dor que não sente, sabe rir a gargalhada que não quer dar, sabe ser quem não é e dar a impressão de que é aquele que não é. Só o ator sabe chorar sem sofrer de verdade a sua dor e sabe sofrer por algo como se a dor fosse toda sua.

É assim, o ator é acima de tudo um verdadeiro filtro de sentimentos, capaz de emprestar toda a sua emoção para contar as várias facetas de uma mesma história. Só o ator é capaz de mostrar como pode ser possível, um bandido ter suas razões para o que faz e ao mesmo tempo, mostrar que um mocinho nem sempre é só mocinho. O ator é alguém capaz de esquecer de quem se é para dar lugar à alguém que pouco se conhece.

Pena que alguns acham que seja assim tão simples ser um fingidor e se aventuram em fazer aquilo para o qual não estão preparados. Não é porque se é um fingidor, que se finge simplesmente. A arte de fingir vai muito além do fazer de conta. É fingir que sente aquilo que não se sente, mas sentindo. Isso, só o ator, com a experiência que vai adquirindo durante a sua estrada, é capaz.

E quando se vê um espetáculo onde o ator esbanja a arte de ser um fingidor, aí sim a gente se deixa levar pela história. E ri, se emociona, compartilha cada ação e cada reação do que se vê em cena e sai de alma lavada, certos de que somos tudo aquilo que acabamos de ver.

Felizes aqueles atores que dominam a arte de ser um fingidor, que não poupam esforços para nos convencer de algo que a gente sabe que não é verdade, mas sai convencido de que é. Que nos hipnotiza e que nos conquista com o seu talento de ser um grande fingidor.

Ainda bem que o ser humano pode contar com um fingidor para lhe mostrar o quanto se é patético e boçal, o quanto se é ninguém, o quanto se é mortal, o quanto fingimos ser aquilo que não somos e o quanto queremos viver aquilo que não podemos. Ave, atores com o dom da arte de ser um fingidor, reverencio aqui, a cada um de vocês.


FELICIDADE É ESTAR VIVO!

Setembro 26, 2009

LUZ GERAL. QUARTO DE UM CASAL. UM HOMEM SENTADO À CAMA, OLHA FIXO UM PAPEL.

Homem          – (SE LEVANTANDO) Droga! Justo agora!

O HOMEM AMASSA O PAPEL COM RAIVA E O JOGA NO CHÃO. UMA MULHER ENTRA, ESTÁ DE CAMISOLA, TEM UMA TOALHA ENROLADA NA CABEÇA.

Mulher            – Foi ao médico?

Homem          – Fui!

Mulher            – E aí?

Homem          – Tudo bem! Saúde de Ferro!

A MULHER SE OLHA EM UM ESPELHO DE CORPO INTEIRO.

Mulher            – Acho que vou aproveitar e corrigir o meu nariz também. O que você acha?

HOMEM SE SENTA NA CAMA.

Homem          – Preferia você do jeito que você era.

Mulher            – Mas, eu, não!

ELA PASSA A MÃO PELO CORPO, TIRA A TOALHA DA CABEÇA, SACODE O CABELO E SAI.

Homem          – Não reconheço mais aquela mulher por quem me apaixonei!

Mulher            – (EM OFF) To melhor, não to?

Homem          – Eu não sei pra que tudo isso?

A MULHER ENTRA. TRAZ UNS CREMES.

Mulher            – Pra ficar linda!

A MULHER SENTA-SE NA CAMA E COMEÇA A PASSAR CREMES NAS PERNAS.

Homem          – Mas você é linda!

Mulher            – Ta!… Eu tenho espelho em casa, sabia?

Homem          – O que te aconteceu?

Mulher            – Vida nova! Vida nova! E quero começar essa vida nova, com um corpo novinho em folha! Pois o tempo é cruel com as mulheres, e comigo não foi diferente.

ELA SE DEITA E COLOCA PEPINOS SOBRE OS OLHOS. ELE SE LEVANTA.

Homem          – Nunca me queixei das mudanças que o tempo fez no seu corpo.

Mulher            – Não sei! Não estou com você ás vinte e quatro horas do dia pra saber o que você fala de mim!

Homem          – Parece que você não me conhece mais.

Mulher            – Você é que não me conhece, isso sim!… Faz uma massagem nos meus pés, faz. pois preciso estar bem descansadinha para fazer a minha lipoaspiração.

ELE SE SENTA NA BEIRADA DA CAMA E COMEÇA A MASSAGEAR OS PÉS DA MULHER.

Homem          – Essa mudança toda não fez bem para nós.

Mulher            – Lógico que fez!

Homem          – Antes de tudo acontecer, tudo era diferente.

Mulher            – Pobre!

Homem          – Simples!

ELA TIRA OS PEPINOS DOS OLHOS E SENTA NA CAMA.

Mulher            – Tudo o que eu tenho feito é para te agradar.

Homem          – Mas já lhe disse: Nunca me queixei. Eu gostava de você do jeito que você era. Conhecia cada atalho do seu corpo, cada marca, cada estria, cada celulite.

A MULHER SE LEVANTA ABRUPTAMENTE, ATIGINDO O HOMEM COM UM DOS PÉS.

Homem          – O que aconteceu com você?

Mulher            – Acontece que eu me cansei, das estrias, das celulites, das marcas pelo corpo.

Homem          – Mas parece que tudo acabou por mudar também a sua personalidade.

Mulher            – Fiz pra me sentir feliz. Pra te fazer feliz. A gente merecia isso depois de tanto sofrimento.

Homem          – Mas, eu não estou feliz.

Mulher            – Você diz tanto que gosta de mim e agora que fiz tudo que fiz, voce vem me criticar.

Homem          – Não entendo essa coisa. Antes, o corpo não te incomodava.

Mulher            – Antes, a gente não tinha dinheiro.

Homem          – Antes, a gente era feliz!

Mulher            – Você deve estar com ciúmes de mim, isso sim!  Preferia  me  ver

gorda, cheia de celulite, não é?

Homem          – Sempre achei que dinheiro trazia felicidade…

Mulher            – E traz sim!

Homem          – Dinheiro só traz desgraça!

A MULHER VOLTA A FRENTE DO ESPELHO, SE OLHA. DEPOIS DESFILA  PROVOCANDO O HOMEM.

Homem          – Pára com isso! Não está vendo que está fazendo papel de ríducula.

Mulher            – Ta com medo de perder a empregada que te põe a mesa e a prostituta que te serve na cama?

Homem          – Não acredito no que estou ouvindo.

Mulher            – Se você não está satisfeita com a nova mulher que estou me transformando… É, transformando, pois ainda tenho muito que mudar nesta carcaça judiada pela vida… A gente pode por o ponto final em tudo.

Homem          – Taí! Agora você falou uma coisa sensata. Vou dar um jeito nisso tudo.

Mulher            – O que você vai fazer?

O HOMEM PEGA O SE CELULAR.

Mulher            – Não vai fazer nenhuma besteira, hein? Não esquece que metade do prêmio é meu.

Homem          – Alô!…  É da Associação das Crianças Desamparadas?…  Queria fazer uma doação…

A MULHER TENTA PUXAR O CELULAR DA MÃO DO HOMEM.

Homem          – Isso!… uma doação… Um milhão de reais…

Mulher            – Não! Não faz isso!… Metade desse dinheiro é meu…

A MULHER, ELOUQUECIDA, COMEÇA A SOCAR O HOMEM.

Homem          – Amanhã mesmo… É!… Passo por aí para confirmar a doação. Até mais.

O HOMEM DESLIGA O CELULAR E SE DESVENCILHA DA MULHER.

Homem          – Pronto! Assunto encerrado.

Mulher            – E a minha lipo?

Homem          – To fazendo isso pela nossa felicidade.

O HOMEM SEGUE EM DIREÇÃO À CAMA. A MULHER PASSA A MÃO EM UM ABAJUR E AMEÇA JOGÁ-LO NO HOMEM, QUE CAI NA GARGALHADA.

Mulher            – Ta rindo de quê? Olha que eu atiro!

Homem          – Era mentira, sua boba! Você acha que eu vou desperdiçar esse dinheirão todo?

Mulher            – Eu vou te matar!

ELA AMEAÇA NOVAMENTE JOGAR O ABAJUR, MAS O COLOCA SOBRE A MESA E APANHA O PAPEL AMASSADO NO CHÃO ATIRA-O NO HOMEM, QUE CONTINUA A GARGALHAR. A MULHER AINDA ESTÁ FURIOSA.

Homem          – (AINDA RINDO) Quer me matar?

Mulher            – Devia!

O HOMEM APANHA O PAPEL QUE A MULHER LHE JOGOU E SEU HUMOR VAI MUDANDO À MEDIDA QUE ELE VAI O DESAMASSANDO, ATÉ QUE ELE COMEÇA A CHORAR.

Mulher            – Não adianta fazer teu teatro, não!

ELE ENTREGA O PAPEL PARA MULHER.

Homem          – (SEGURANDO O CHORO) Tudo que você está fazendo não vai ser pra mim.

Mulher            – (LENDO EM VOZ ALTA) Câncer na próstata!

Homem          – Dinheiro não traz felicidade!

A MULHER LARGA O PAPEL E ABRAÇA O HOMEM FORTE. FOCO NOS DOIS, QUE VÃO SE ACARICIANDO.

Homem          – Não muda mais nada em você!

Mulher            – Depois a gente conversa sobre isso.

Homem          – Eu já to no fim!… Acabou!

Mulher            – Não! É um novo começo. A gente vai superar! Pelo menos agora a gente tem dinheiro. A gente vai continuar a ser feliz.

OS DOIS VÃO CAINDO, ABRAÇADOS. A LUZ VAI CAINDO EM RESISTÊNCIA.

                                                                                              – FIM -

 

 

 

 

 


Marginal ou Popular?

Setembro 20, 2009

O teatro sempre foi considerado uma arte marginal. Um ambiente freqüentado por desocupados, prostitutas, homossexuais e ébrios boêmios, onde, aos filhos de uma sociedade, não lhes era permitido freqüentar. E, por muito tempo, fazer parte de um grupo de teatro, dava este rótulo para quem o fazia.

Passava longe das cabeças de uma sociedade pequeno burguesa, que teatro fosse algo maior, algo que engrandecesse o ser humano como pessoa, e que a arte de interpretar podia ser algo desfrutada por todos. E na esteira deste rótulo de marginalidade, o teatro seguiu e, resistente como ele só, aos poucos, foi vencendo as barreiras do preconceito.

Hoje em dia, é certo que, muito por conta do sucesso das telenovelas, essa imagem do teatro deixou de ser assim, tão marginal, pois, interessados no sucesso como futuras celebridades de uma próxima novela, pais incentivam os seus filhos a freqüentarem o ambiente do teatro, dando-lhe então, um caráter cada vez mais popular.

Mas, a essência marginal permanece nos arredores de alguns poucos grupos, que ainda preferem que seu teatro seja reconhecido pela sociedade, como uma arte marginal, mesmo que entre os seus freqüentadores, não circulem mais, nenhum dos estereótipos de outrora, pois a idéia de fazer um teatro popular acaba indo de encontro a alguma de suas convicções.

Pontos de vista diferentes para uma mesma arte, marginal ou popular, o que  deve sim ser deixado de lado, é essa coisa preconceituosa de que teatro de verdade tem que ser marginal. A arte de interpretar tem que ser o “x” da questão, a forma pela qual cada um vai se dispor a passar sua mensagem, pouco importa.

Nos tempos de agora, burgueses e marginais, cada qual sabe muito bem, o quão o teatro é importante como instrumento enriquecedor da alma humana, e não cabe tratar com desdém, nem o lado “A”, nem o lado “B” de uma mesma arte, pois já bastou todo o preconceito enfrentado por aqueles que encararam os olhares tortos de uma sociedade, para fazerem do teatro, uma arte realmente popular, na verdadeira concepção da palavra.

O teatro é a arte do povo, seja ele marginal ou não, pois, em cima do palco, pouco importa a origem do ator.


Eu quero o papel principal!

Setembro 11, 2009

Muitos que nem bem começaram a conhecer como se dá o “fazer teatral”, e nem sabem direito o que é interpretar uma personagem, iludidos com a pretensão de figurar como astros das telenovelas, já chegam certos que farão o papel principal da peça.

É sempre isso, que invariavelmente acontece, quando algumas pessoas que querem fazer teatro vão em busca de cursos ou grupos teatrais. Chegam se achando os melhores, que fazem e acontecem, mas quando ficam sabendo que não vão fazer o papel principal, a “brincadeira” acaba.

Acho que a confusão está justamente aí: “brincadeira”. Muitos vão parar no teatro por pura curtição. Pra fazer pose de culto e intelectual, pra se juntar a uma turma legal, pra fazer amigos, pra se libertar, são poucos que realmente encaram o sacrifício que é, o “fazer teatro”. Tem gente que não agüenta nem os ritmos de ensaios. Como pode achar que é ator?

O que precisa ficar claro também, é que teatro além dos muros do colégio, é muito diferente. O Teatro feito nas escolas tem um caráter muito mais pedagógico do que artístico, e ás vezes até pode ter um tom de brincadeira. Já quando se decide integrar um grupo de teatro, deve-se entender logo de início, que o papel principal é o que menos importa.

O que interessa é que quando se decide entrar para a “turma do teatro”, deve-se ter a consciência de que realmente se quer ser um ator e, se dedicar a isso, até mesmo se tiver que ficar na coxia como contra-regra, ou ajudando nas trocas figurinos. É preciso, antes de reivindicar o papel principal, ter a plena consciência que teatro é uma arte de grupo.

O teatro sempre vai estar de braços abertos, esperando todos aqueles que vão procurá-lo dispostos a integrar e abraçar essa arte como uma profissão, que por vezes, é quase um sacerdócio, por isso, se realmente é isso que você quer, esquece essa história de fazer o papel principal logo de cara, quando se vive o teatro de verdade, qualquer papel que se faça, é e será o papel principal.