ERA UMA VEZ UM HOMEM…

ERA UMA VEZ UM HOMEM…

Peça Infantil de: PAULO SACALDASSY

PERSONAGENS

TATU

TAMANDUÁ

JAGUATIRICA

HOMEM

    

OBS.: Os diálogos estão em linguagem coloquial característica do pessoal do interior, portanto não obedecem à norma culta da língua.

 

CONTATO: sacaldassy@yahoo.com.br

TEL.: 0 XX 13 – 3363-3942

 

 

 

 

CENÁRIO: UMA FLORESTA.

AO ABRIR AS CORTINAS, UM TATU ESTÁ EM CENA SENTADO EM UMA PEDRA, ENROLANDO UM FUMINHO DE ROLO, TEM UMA VIOLA AO LADO. UM TAMANDUÁ E UMA JAGUATIRICA SE APROXIMAM.

Tamanduá     - Boa tarde, cumpade Tatu!

Tatu                - Tarde!

Jaguatirica    - Tudo tranquilo por aqui?

Tatu                - Tudo!

Tamanduá     - O cumpade tá sabendo que tentaram entrá na floresta outra vez?

Tatu                - Tô sabendo sim! É sempre assim…

Jaguatirica    - Mas num havera de se preocupá, não, viu cumpade Tamanduá! Se arguém se atrevê tirá a nossa paz, eu põe pra corrê.

Tatu                - Tá certo, cumade! Tâmo sabendo de sua corage!

Tamanduá     - Essa sua tranquilidade é impressionante, vice?

Tatu                - Pressa pra quê cumpade?

Jaguatirica    - Pra fugí do inimigo, ara!

Tatu                - Inimigo, a gente enfrenta com a cabeça, sô! Aliás, já que ocês tão por aqui mesmo, vô contá um causinho pr’ocês…

Tamanduá     - Lá vem o cumpade com suas histórias!

Jaguatirica    - Com suas mentiras, isso sim! Pois o cumpade não passa de um mentiroso, isso é que é!

Tatu                - Mas, essa ocês sabem que é verdade! Ou ocês num alembram?

Tamanduá     - Quar? Num vai dizê que é aquele da cumade galinha que quase morreu entalada com o seu próprio ovo?…

Jaguatirica    - Nem aquela do cumpade Jacaré que tava cansado de nadá e qua-se morreu tomando sol na beira do rio…

Tatu                - Nada disso! É a história daquele outro bicho… o bicho home!…

Tamanduá     - Essa eu num gosto nem de me alembrar!

Jaguatirica    - Mas, quar? São tantas!

Tatu                - É aquele que o tar bicho home…

SOM DE TIROS. OS BICHOS SAEM CORRENDO. BLACK-OUT.

LUZ GERAL, UM HOMEM VESTIDO DE CAÇADOR TRAZENDO UMA MOCHILA,  ENTRA EM CENA.

Homem          - Nessa mata devastada

                          Onde quase não há nada

                          Ainda haverei de encontrar

                          Um bicho de pêlo grosso

                          Um outro de casca dura

                          Quem sabe uma onça pintada

                          Para fazer uma moldura

                          Um tal bicho em extinção

                          Que seja uma raridade

                          Aumentando a devastação

                          Dessa fauna tão selvagem

                          Mesmo porque o que interessa

                          É a vida do homem da cidade

                          Porque bicho da floresta

                          Serve só pra fazer maldade

                          E assim que eu encontrar

                          Serei reconhecido como aventureiro

                          Vou ter uma vida melhor

                          Vou ganhar muito dinheiro

                         Mas, onde estão os bichos desta floresta? Não acredito que não viva por aqui nenhum bicho que valha a pena ser capturado. Uma espécie em ex-tinção será bem melhor, pois o dinheiro será maior… Tem bicho que não serve pra nada mesmo. (O HOMEM TIRA DE SUA MOCHILA ALGUNS OBJETOS E PRE-PARA UMA ARMADILHA) Vou deixar essa bem aqui. Enquanto isso vou procurar algum lugar para armar acampamento, depois eu volto para ver se algum bicho esperto caiu em minha armadilha.

O HOMEM SAI DE CENA. ENTRAM O TATU, O TAMANDUÁ E A JAGUATIRICA. O TATU, COMO SEMPRE, SENTA EM SUA PEDRA E CONTINUA ENROLANDO O SEU FUMINHO DE ROLO. TEM SUA VIOLA ENCOSTADA A PEDRA.

Tamanduá     - Esse tiro não é um bão sinar!

Tatu                - É verdade, cumpade!    

Jaguatirica    - Já tô sentindo cheiro de home por aqui.

Tatu                - E olha só! (MOSTRANDO A ARMADILHA) Ele já chegou por aqui!

Tamanduá     - Então, agora tâmo perdido, cumpade!

Jaguatirica    - Vou arrancá o coro desse home!

Tatu                - É só prestá a atenção pra num pisá na armadilha. Se o home vê que num pegô bicho nenhum, ele vai embora!

Tamanduá     - Mas, ocê é muito tranquilo, mesmo, hein cumpade?

O TATU SE PÕE PENSATIVO.

Jaguatirica    - É que ele sabe que se precisá, eu tô aqui!

                          De uma linhagem felina

                          Sou uma onça brasileira

                          Vivo embrenhada nas matas

                          Num faço mar a ninguém

                          Há aqueles que tem medo

                          Quando dou o meu rugido

                          Mas é só auto defesa

                          Não quero ferir ninguém

  Só se me atacam primeiro

  Viro de fato uma fera

  Onça feroz e viril

                          E com o meu bote certeiro

                          Quando ninguém mais espera

                          Eu firo assim quem me feriu.

SONS DE TIRO. OS BICHOS TRATAM DE SAIR CORRRENDO. O RABO DO TAMANDUÁ FICA PRESO NA ARMADILHA. ENTRA O HOMEM.

Homem          - Olha só! Um belo tamanduá em extinção caiu na minha armadilha!

A JAGUATIRIGA ATRAVESSA A CENA TIRANDO A ATENÇÃO DO HOMEM. O TATU VAI E LIVRA O TAMANDUÁ DA ARMADILHA.

Homem          - Droga! Não é que aquele tamanduá conseguiu escapar! Se não fosse aquela onça!… Mas isso é um bom sinal! Deve ter outros bichos em extinção prontos para caírem nas minhas armadilhas. Desta vez vou armar logo duas arma-dilhas. Assim, tenho certeza que consigo pegar algum.     

O HOMEM ARMA SUAS ARMADILHAS E SAI. OS BICHOS ENTRAM.

Tamanduá     - Essa foi por pouco!

Tatu                - É cumpade! Precisa prestá mais atenção!

Jaguatirica    - Da próxima vez, esse home num me escapa!

Tamanduá     - Olha lá! O home agora armô duas armadilha!

Tatu                - Num se preocupe, cumpade, a gente é mais esperto que ele!

Jaguatirica    - E temos uma vantagem, já conhecemos muito bem a mata.

Tamanduá     - Num sei que esse bicho home quer tanto aqui na floresta!

Tatu                - Vai vê ele gosta do ar puro, né mesmo, cumade?

Jaguatirica    - É verdade, cumpade!

OS DOIS CAEM NA GARGALHADA.

Tamanduá     - Já faz tempo que aqui

                          Num se tem paz pra vivê

                          Há alguém a nos perseguir

                          Temo sempre que corrê

                          Como pode ser assim

                          Num se ter tranquilidade

                          Tâmo quase no fim

                          Por conta de tanta mardade

                          Precisamo encontrá

                          Uma solução certeira

                          Uma forma derradeira

                          De acabá com a perseguição

OUVE-SE SOM DE TIRO

                         Corre Tatu e se esconde

                         Que o homem vai te pegá

                          Eu também já vou indo

                          Pois preciso escapá

OS BICHOS CORREM, MENOS A JAGUATIRICA QUE FICA PRESA EM UMA DAS ARMADILHAS. ENTRA O HOMEM.

Homem          - Olha só! Que bela onça pintada!

Jaguatirica    - Me sorta daqui!

Homem          E não é que a tal onça é valente! Esse belo exemplar vai me render um bom dinheiro. Só que sua cabeça vou pendurar na minha sala como um troféu, pois não é sempre que se consegue capturar uma onça, não é mesmo? Bom, acho que vou descansar dessa caçada, mesmo porque, já não vou embora de mãos abanando. (PARA A JAGUATIRICA) E você, trate de se comportar, viu?

Jaguatirica    - Preciso dá um jeito de me livrá dessa armadilha, senão vou acabá morrendo, isso sim!

ENTRAM O TATU E O TAMANDUÁ.

Tatu                - Ê cumade, tanta valentia e acabô caindo na armadilha, hein?

Tamanduá     - Eu bem que avisei pra corrê!

Jaguatirica    - Me tirem daqui, por favô! Ele disse que vai me matá!

Tatu                - Carma, cumade! Sempre tem uma saída.

Tamanduá     - Mas, quar?

Jaguatirica    - Me tira daqui! Me tira daqui!

Tatu                - Nem sempre é com a força

                          Que se ganha uma batalha

                          Ou se escapa do perigo

                          Precisa ser astuto

                          Muito mais que destemido

                          Pra enfrentá o inimigo

                          Aí sim será possível

                          Revertê toda a situação

                          Deixá de sê o perseguido

                          Pra fazê a perseguição

                          E no momento certo

                          Quanto menos se esperá

                          Dá o bote certeiro

                          E o inimigo capturá

O TATU SE SENTA NA PEDRA E SE PÕE PENSATIVO.

Jaguatirica    - (PARA O TAMANDUÁ) Ocê precisa me tirá daqui. Quando ocê caiu na armadilha eu ajudei ocê a escapá!       

Tamanduá     - Eu sei, cumade! Mas, como posso fazê isso?

O HOMEM ENTRA DE SURPRESA.

Homem          - Olha só isso! Agora minha caçada ficou completa. Uma onça, um tamanduá e um tatu. Dessa vez vou faturar alto! Fazia tempo que uma caçada não era tão bem sucedida!.

O TATU SE LEVANTE E VAI EM DIREÇÃO AO HOMEM.

Jaguatirica    - Cuidado, cumpade!

Tamanduá     - Num faz isso! Ele vai te pegá!

Tatu                - Ô, seu home! A gente pode tê dois dedinhos de prosa!

Homem          - Não tenho nada pra conversar com você!

Tatu                - É que eu queria contá uma historinha pra vos micê…

Tamanduá     - Lá vai o cumpade com suas histórias!

Jaguatirica    - (PARA O TAMANDUÁ) Aproveita que o cumpade vai contá as suas histórias e tenta sortá esse nó que tá prendendo minha pata.

Homem          - (PARA O TATU) Tudo bem! Mas tem que ser bem rápido, pois preciso levar vocês logo daqui!

Tatu                - Num vai demorá nada. É só um tiquinho…

Tamanduá     - (PARA A JAGUATIRICA) Tá difícil, cumade!

Tatu                - (PARA O HOMEM) Era uma vez um home, lá pra bandas da Mata Larga… Um caboclo valente como ele só… Assim como vos micê aqui! Ele num tinha medo de tatu, de cobra, de tamanduá. Nem mesmo de onça, o caboclo tinha medo. Então, ele entrô na mata mais fechada que existia na região, tava disposto a enfrentá todos os perigos… E chegou lá, no meio da mata, com toda sua corage e valentia…

Homem          - (PARA O TATU) Dá pra ser um pouquinho mais rápido?

Jaguatirica    - (PARA O TAMANDUÁ) Vai cumpade! Tá quase soltando o nó!

Tatu                - (PARA O HOMEM) Tá certo! O home quer que eu seja rápido, então vamô lá!… O caboclo enfrentô todos os bichos daquela mata e vortô pra casa sastisfeito com a sua caçada, assim como vos micê tá, sastisfeito por tê capturado três espécies em extinção… Mas aí, quando o caboclo vortô pra sua casa, que tragédia… um outro bicho home, mais valente do que ele e mais ganancioso do que ele, tinha invadido sua casa e matado toda a sua família…       

Homem          - Ora, isso é conversa fiada. Vou acabar já com essa brincadeira! (E SACA SUA ARMA).

O TAMANDUÁ CONSEGUE SOLTAR A JAGUATIRICA. OS TRÊS BICHOS CER-CAM O HOMEM.

Tatu                - … Só que o bicho home num aprendeu a lição e continua a invadí as matas atrás dos animar em extinção. Ê bicho burro esse tar de home!…

O HOMEM APONTA A ARMA PARA O TATU, MAS A JAGUATIRICA PULA EM CIMA DELE. OS DOIS LUTAM. O HOMEM CONSEGUE ESCAPAR E SAI DE CE-NA. BLACK-OUT.

LUZ GERAL. O TATU ESTÁ SENTADO NA MESMA POSIÇÃO DO INÍCIO, EN-ROLANDO SEU FUMINHO.

Tatu                - Ê bicho mais burro, não, sô!

Jaguatirica    - Mas também se num fosse eu?

Tamanduá     - Mas seu eu num tivesse te soltado…

Tatu                - Só, que se num fosse o meu causinho, o tar do bicho home, tinha era papado nós três…

Jaguatirica    - É! Isso bem que é verdade!

Tamanduá     - Ê cumpade mais esperto, sô!

Tatu                - Já que ocês gostaram tanto desse meu causinho, vou contá outro pro’cês…

Tamanduá     - Chega de causo por hoje, cumpade!

Jaguatirica    - Também já tô sastisfeita!

OS DOIS SAEM DE CENA.

Tatu                - E tem cumpade que num acredita nas minhas histórias!

O TATU ACENDE SEU FUMINHO DE ROLO, PEGA SUA VIOLA DE TRÁS DA PEDRA E COMEÇA TOCAR UMA MODA.

                          Coitado do bicho home

                          Que se acha o mais esperto

                          Nós caça porque tem fome

                          E ele por sê anarfabeto

                          Num sabe que samos parte

                          Todos da mesma família 

                          O home só faz besteira

                          E cai sempre na armadilha…

APAGUAM-SE AS LUZES. FECHAM-SE AS CORTINAS.

                                                           - FIM -

2 Respostas para “ERA UMA VEZ UM HOMEM…”

  1. Silvestre Macêdo (Do grupo de teatro Capim Pubo no povado Capim Pubo em Elesbão Veloso Piauí) Disse:

    É uma peça maravilhosa, li e gostei muito, quero saber se posso encená-la com o meu grupo, pois o grupo de teatro capim Pubo é um grupo sem condições financeiras sem nemhum apoi.

    Quero respostas em meu E-mail.

    Obrigado!!!

  2. Dinair Junior Disse:

    muito linda esta peça teatral. Muito bom para trabalhar com a turma pra dismistificar toda a escrita errada do aluno troca de letras, muito boa amei.

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