A função do artista

Março 31, 2009

Mais do que entreter, o artista tem papel fundamental na sociedade, pois é através dele que se é capaz de exorcizar todos os fantasmas da vida comum. Seja lá através da música, do teatro, ou do cinema, são as histórias contadas pelos artistas que refletem toda uma sociedade.

 

É através da arte que muitas pessoas conseguem mudar os rumos de suas vidas, ou olharem a vida sobre um outro prisma, vide as oficinas culturais em comunidades carentes e as aulas de teatro freqüentadas pelo cidadão comum.

 

Quem pensa em ser artista, deve pensar e ter a consciência de que seu papel na sociedade é bem maior do que aquele que ele representa em cima de um palco. Na maioria das vezes, o artista acaba sendo o “norte” de muita gente.

 

É claro, que os problemas do mundo não podem e nem serão resolvidos pelo artista e sua arte, mas com certeza é através do artista que se retratam os problemas, mostram-se a tirania, a violência da sociedade, bem como as “neuras”, ambições, tristezas e as alegrias dos seres humanos.

 

Mesmo que a sociedade não veja o artista deste jeito, e ache sempre o seu trabalho de menor importância, a função do artista estará presente ali, na vida de cada um, influindo de uma forma ou de outra,mesmo que a sociedade não queira admitir a importância que o artista tem na vida de cada um.

 

Por isso, quando lhe perguntarem porque você quer ser ou é um artista, responda-lhe que faz isso não só para exercitar o seu talento ou massagear o seu ego, diga-lhe que você, enquanto cidadão, faz da arte e através dela, um instrumento de auxílio para uma sociedade melhor.

 

Triste é a sociedade onde a cultura não é enxergada como um instrumento de crescimento, não apenas cultural e intelectual, mas também com um instrumento de engrandecimento do ser humano.

 

 

 

 


Depois dizem que criança é birrenta!

Março 28, 2009

Oi, gente! Tá cada vez mais difícil entrar no blog do tio Paulo, viu? Eu peço, peço, peço, mas ele não me deixa. Agora, aproveitei que ele está escrevendo um texto e entrei aqui para contar uma história pra vocês. Não é bem uma aventura como as outras. É uma história muito triste. Na verdade é sobre uma briga que eu vi na televisão. Uma briga, não! Uma guerra!

 

Eu tava brincando com as minhas bonecas, bem no meio da sala, quando o meu pai chegou.

 

“Helena, vê se não faz barulho que eu quero ver o jornal!”

 

Eu nem tava fazendo barulho. E continuei com a minha brincadeira.

 

“Agora a gente vai jantar, viu, Dona Helena?”

 

Minha mãe queria que a gente jantasse logo, pois ela queria ver a novela. Era assim todo dia. Meu pai via o jornal e minha mãe via novela.

 

“Deixa eu ver só essa reportagem!” Disse o pai de Helena.

 

“Eu não consigo entender tanto ódio desse povo!” Retrucou a mãe de Helena.

 

Aquela conversa do meu pai com a minha mãe chamou minha atenção, então, resolvi parar de brincar e não tirei mais os olhos da televisão.

 

“Senta, vamos ver isso!” Disse o pai de Helena a sua mãe.

 

“Eu já não agüento mais assistir tanto absurdo!” Respondeu a mãe de Helena.

 

Enquanto meu pai e minha mão conversavam, eu fiquei ali olhando o moço do jornal da televisão, falando que um povo que morava num lugar chamado Israel, estava brigando com um pessoal que morava num lugar chamado Palestinha. Não! Palestina.

 

“Depois, se a comida ficar fria, não quero nem saber!… Vem comer, Helena!”

 

Eu fiz um sinal com a mão pedindo para minha mãe esperar, pois uma coisa eu não estava entendendo muito bem. O moço do jornal disse que eles estavam brigando num lugar chamado de Terra Santa. Mas, como pode ser santa, se um vive jogando bomba na terra do outro?

 

“A professora disse que todos nós somos filhos de Deus, será que eles não são?”

 

Eu não conseguia entender. Aquelas bombas matando crianças nas duas terras, não era uma coisa boa de fazer.

 

“Olha só isso!… Que absurdo!” Disse o pai de Helena, indignado.

 

“Eles que se matem!” Disse a mãe de Helena, lá da cozinha.

 

Minha mãe estava morrendo de raiva. Acho que ela também não gostava de ver um jogando bomba no outro.

 

“Pai, posso fazer uma pergunta?”

 

“Fala, Helena”.

 

“Eles estão brigando desse jeito porque eles acham que cada um é que é dono da terra de Jesus?”

 

“Mais ou menos. Deixa eu ver a televisão, Helena!”

 

“Mas, Jesus não está no céu?”

 

“Está, minha filha, está!”

 

Aí eu parei de ver a televisão. Não conseguia entender a briga mesmo. Ainda mais quando o moço falou que aquela briga não tinha dia pra acabar.

 

“Manhêêêê!!! To com fome!”

 

Larguei minhas bonecas no meio da sala e sai correndo pra jantar. E tem mais, pra mim, tá todo mundo errado. Onde já se viu, se todo mundo é filho de Deus, não pode um povo ficar brigando com o outro por caso da terra de Jesus. Se a terra é de Jesus, tem de ser de tudo mundo.

 

Ai, esses adultos não tem jeito, depois dizem que criança que é birrenta!

 

Bom, foi mais ou menos isso que entendi na televisão. Agora já vou ficando por aqui. Um beijo para todos vocês. Ah, espero não demorar muito para voltar aqui no blog do tio Paulo. Tchaaaaaaauuuuuuu!!!!


A pirataria dos textos teatrais

Março 22, 2009

Tal e qual o que acontece com os músicos que tem os seus direitos autorais vilipendiados por CD’s e DVD’s vendidos em bancas de camelôs, os dramaturgos também sofrem com a pirataria de seus textos.

 

Não é raro ouvir reclamações de dramaturgos que tem os seus textos montados sem que sejam observados no mínimo, os devidos créditos, quando não fazem pior, surrupiam descaradamente os textos, montam e apresentam como se deles fossem.

 

Não acredito que as pessoas que tomam esse tipo de atitude respeitem o teatro. E não venham me dizer que montar um espetáculo é dispendioso, isso tudo mundo sabe, mas e como ficam os dramaturgos?

 

A pirataria já é um câncer para os músicos, imaginem para os dramaturgos, que sofrem com as dificuldades de verem seus textos montados? Nada é pior, do que saber que seu texto foi montado, ganhou prêmio e sequer teve o nome de quem escreveu mencionado.

 

Acho que a consciência sobre a necessidade de se pagar os direitos autorais dos autores-dramaturgos deveria imperar nas cabeças daqueles que dirigem e/ou produzem espetáculos teatrais, bem como nos dirigentes de teatro e cultural, fazendo com que fosse obrigado apresentar a autorização da utilização do texto. 

 

Mas parece que esse cenário está longe de ser mudado. A vida dos dramaturgos continuará sem o devido respeito, pois enquanto não se tomar uma atitude firme e responsável sobre o assunto, tudo ficara como está. Dramaturgos perdendo noites em claro em busca da história perfeita, e diretores e/ou produtores descarados, piratiando as suas obras.

 


O popular também pode ser arte

Março 14, 2009

Não é de hoje que a discussão entre o erudito e o popular toma conta da cena cultural. Prega-se sempre que o sofisticado e o rebuscado, são atributos que representam genuinamente a arte, seja ela, literatura, pintura, música, teatro. Mas, como fica a arte feita para o povo?

Muitos podem atém dizer que não se faz arte verdadeira para o povo, coisa que até concordo. A arte que é entregue ao povo, não passa de arremedo, de engodo, puro entretenimento, e há de convir que a música, representa muito bem esse quadro de falta de qualidade artística, basta ouvir o que toca nas rádios.

Mas, partindo do princípio de que tudo que é fruto da criação é a manifestação pura da arte, o que deve ser discutido é se ela é de bom ou mau gosto. Acho que o resto faz parte de uma discussão infindável. A única coisa que não é e nem pode ser considerada arte, é foto de mulher pelada em revista masculina (mesmo que de vez em quando valha a pena dar uma espiadinha! Por pura curiosidade, não me levem a mal!) Mas, chamar a exposição da anatomia feminina revisada por photoshop de nu artístico, chega a ser um acinte à todos os pintores que nos presentearam com as imperfeições dos corpos femininos em óleo sobre tela. Bem, só que isso é assunto para outra hora. A questão é se a arte pode ou não ser popular.

Analisando bem o quadro, pode se notar que o popular pode ser arte, tanto quanto o erudito pode se tornar uma arte feita para o povo, mas é claro que tudo depende de interesses mercadológicos. Se for lucrativo levar a orquestra à favela ou levar o funk para as festas da alta roda (coisa que já acontece), tudo se acerta através do preço que se paga.

Falando em funk, está aí a demonstração de que o popular pode virar arte desde que interesses mercadológicos sejam satisfeitos. Tanto que até já se cogita transformar o funk em patrimônio cultural. Pode?

É isso aí, meus amigos, não vale a pena arrancar os cabelos em busca de fazer a verdadeira arte, aos olhos do povo e aos interesses da mídia, isso não tem lá muito importância. Se a mídia quiser fazer do ballet clássico, do teatro, algo realmente popular, isso acontecerá, enquanto isso, apure bem os seus sentidos e não se aborreça tanto, pois o popular também pode ser arte, mesmo que seja através de interesses mercadológicos e não agrade quem vê a arte de outra maneira.

Ah, e antes que me atirem pedras, quero deixar claro que esse popular não tem nada a ver com a cultura popular, que a manifestação artística de um povo, onde a arte encontra refúgio para se realizar plenamente e o artista se sente completo. Mas essa, coitada, não é assim tão popular, a não ser uma ou outra festa que atende os tais interesses mercadológicos.


ERA UMA VEZ UM HOMEM…

Março 5, 2009

ERA UMA VEZ UM HOMEM…

Peça Infantil de: PAULO SACALDASSY

PERSONAGENS

TATU

TAMANDUÁ

JAGUATIRICA

HOMEM

    

OBS.: Os diálogos estão em linguagem coloquial característica do pessoal do interior, portanto não obedecem à norma culta da língua.

 

CONTATO: sacaldassy@yahoo.com.br

TEL.: 0 XX 13 – 3363-3942

 

 

 

 

CENÁRIO: UMA FLORESTA.

AO ABRIR AS CORTINAS, UM TATU ESTÁ EM CENA SENTADO EM UMA PEDRA, ENROLANDO UM FUMINHO DE ROLO, TEM UMA VIOLA AO LADO. UM TAMANDUÁ E UMA JAGUATIRICA SE APROXIMAM.

Tamanduá     - Boa tarde, cumpade Tatu!

Tatu                - Tarde!

Jaguatirica    - Tudo tranquilo por aqui?

Tatu                - Tudo!

Tamanduá     - O cumpade tá sabendo que tentaram entrá na floresta outra vez?

Tatu                - Tô sabendo sim! É sempre assim…

Jaguatirica    - Mas num havera de se preocupá, não, viu cumpade Tamanduá! Se arguém se atrevê tirá a nossa paz, eu põe pra corrê.

Tatu                - Tá certo, cumade! Tâmo sabendo de sua corage!

Tamanduá     - Essa sua tranquilidade é impressionante, vice?

Tatu                - Pressa pra quê cumpade?

Jaguatirica    - Pra fugí do inimigo, ara!

Tatu                - Inimigo, a gente enfrenta com a cabeça, sô! Aliás, já que ocês tão por aqui mesmo, vô contá um causinho pr’ocês…

Tamanduá     - Lá vem o cumpade com suas histórias!

Jaguatirica    - Com suas mentiras, isso sim! Pois o cumpade não passa de um mentiroso, isso é que é!

Tatu                - Mas, essa ocês sabem que é verdade! Ou ocês num alembram?

Tamanduá     - Quar? Num vai dizê que é aquele da cumade galinha que quase morreu entalada com o seu próprio ovo?…

Jaguatirica    - Nem aquela do cumpade Jacaré que tava cansado de nadá e qua-se morreu tomando sol na beira do rio…

Tatu                - Nada disso! É a história daquele outro bicho… o bicho home!…

Tamanduá     - Essa eu num gosto nem de me alembrar!

Jaguatirica    - Mas, quar? São tantas!

Tatu                - É aquele que o tar bicho home…

SOM DE TIROS. OS BICHOS SAEM CORRENDO. BLACK-OUT.

LUZ GERAL, UM HOMEM VESTIDO DE CAÇADOR TRAZENDO UMA MOCHILA,  ENTRA EM CENA.

Homem          - Nessa mata devastada

                          Onde quase não há nada

                          Ainda haverei de encontrar

                          Um bicho de pêlo grosso

                          Um outro de casca dura

                          Quem sabe uma onça pintada

                          Para fazer uma moldura

                          Um tal bicho em extinção

                          Que seja uma raridade

                          Aumentando a devastação

                          Dessa fauna tão selvagem

                          Mesmo porque o que interessa

                          É a vida do homem da cidade

                          Porque bicho da floresta

                          Serve só pra fazer maldade

                          E assim que eu encontrar

                          Serei reconhecido como aventureiro

                          Vou ter uma vida melhor

                          Vou ganhar muito dinheiro

                         Mas, onde estão os bichos desta floresta? Não acredito que não viva por aqui nenhum bicho que valha a pena ser capturado. Uma espécie em ex-tinção será bem melhor, pois o dinheiro será maior… Tem bicho que não serve pra nada mesmo. (O HOMEM TIRA DE SUA MOCHILA ALGUNS OBJETOS E PRE-PARA UMA ARMADILHA) Vou deixar essa bem aqui. Enquanto isso vou procurar algum lugar para armar acampamento, depois eu volto para ver se algum bicho esperto caiu em minha armadilha.

O HOMEM SAI DE CENA. ENTRAM O TATU, O TAMANDUÁ E A JAGUATIRICA. O TATU, COMO SEMPRE, SENTA EM SUA PEDRA E CONTINUA ENROLANDO O SEU FUMINHO DE ROLO. TEM SUA VIOLA ENCOSTADA A PEDRA.

Tamanduá     - Esse tiro não é um bão sinar!

Tatu                - É verdade, cumpade!    

Jaguatirica    - Já tô sentindo cheiro de home por aqui.

Tatu                - E olha só! (MOSTRANDO A ARMADILHA) Ele já chegou por aqui!

Tamanduá     - Então, agora tâmo perdido, cumpade!

Jaguatirica    - Vou arrancá o coro desse home!

Tatu                - É só prestá a atenção pra num pisá na armadilha. Se o home vê que num pegô bicho nenhum, ele vai embora!

Tamanduá     - Mas, ocê é muito tranquilo, mesmo, hein cumpade?

O TATU SE PÕE PENSATIVO.

Jaguatirica    - É que ele sabe que se precisá, eu tô aqui!

                          De uma linhagem felina

                          Sou uma onça brasileira

                          Vivo embrenhada nas matas

                          Num faço mar a ninguém

                          Há aqueles que tem medo

                          Quando dou o meu rugido

                          Mas é só auto defesa

                          Não quero ferir ninguém

  Só se me atacam primeiro

  Viro de fato uma fera

  Onça feroz e viril

                          E com o meu bote certeiro

                          Quando ninguém mais espera

                          Eu firo assim quem me feriu.

SONS DE TIRO. OS BICHOS TRATAM DE SAIR CORRRENDO. O RABO DO TAMANDUÁ FICA PRESO NA ARMADILHA. ENTRA O HOMEM.

Homem          - Olha só! Um belo tamanduá em extinção caiu na minha armadilha!

A JAGUATIRIGA ATRAVESSA A CENA TIRANDO A ATENÇÃO DO HOMEM. O TATU VAI E LIVRA O TAMANDUÁ DA ARMADILHA.

Homem          - Droga! Não é que aquele tamanduá conseguiu escapar! Se não fosse aquela onça!… Mas isso é um bom sinal! Deve ter outros bichos em extinção prontos para caírem nas minhas armadilhas. Desta vez vou armar logo duas arma-dilhas. Assim, tenho certeza que consigo pegar algum.     

O HOMEM ARMA SUAS ARMADILHAS E SAI. OS BICHOS ENTRAM.

Tamanduá     - Essa foi por pouco!

Tatu                - É cumpade! Precisa prestá mais atenção!

Jaguatirica    - Da próxima vez, esse home num me escapa!

Tamanduá     - Olha lá! O home agora armô duas armadilha!

Tatu                - Num se preocupe, cumpade, a gente é mais esperto que ele!

Jaguatirica    - E temos uma vantagem, já conhecemos muito bem a mata.

Tamanduá     - Num sei que esse bicho home quer tanto aqui na floresta!

Tatu                - Vai vê ele gosta do ar puro, né mesmo, cumade?

Jaguatirica    - É verdade, cumpade!

OS DOIS CAEM NA GARGALHADA.

Tamanduá     - Já faz tempo que aqui

                          Num se tem paz pra vivê

                          Há alguém a nos perseguir

                          Temo sempre que corrê

                          Como pode ser assim

                          Num se ter tranquilidade

                          Tâmo quase no fim

                          Por conta de tanta mardade

                          Precisamo encontrá

                          Uma solução certeira

                          Uma forma derradeira

                          De acabá com a perseguição

OUVE-SE SOM DE TIRO

                         Corre Tatu e se esconde

                         Que o homem vai te pegá

                          Eu também já vou indo

                          Pois preciso escapá

OS BICHOS CORREM, MENOS A JAGUATIRICA QUE FICA PRESA EM UMA DAS ARMADILHAS. ENTRA O HOMEM.

Homem          - Olha só! Que bela onça pintada!

Jaguatirica    - Me sorta daqui!

Homem          E não é que a tal onça é valente! Esse belo exemplar vai me render um bom dinheiro. Só que sua cabeça vou pendurar na minha sala como um troféu, pois não é sempre que se consegue capturar uma onça, não é mesmo? Bom, acho que vou descansar dessa caçada, mesmo porque, já não vou embora de mãos abanando. (PARA A JAGUATIRICA) E você, trate de se comportar, viu?

Jaguatirica    - Preciso dá um jeito de me livrá dessa armadilha, senão vou acabá morrendo, isso sim!

ENTRAM O TATU E O TAMANDUÁ.

Tatu                - Ê cumade, tanta valentia e acabô caindo na armadilha, hein?

Tamanduá     - Eu bem que avisei pra corrê!

Jaguatirica    - Me tirem daqui, por favô! Ele disse que vai me matá!

Tatu                - Carma, cumade! Sempre tem uma saída.

Tamanduá     - Mas, quar?

Jaguatirica    - Me tira daqui! Me tira daqui!

Tatu                - Nem sempre é com a força

                          Que se ganha uma batalha

                          Ou se escapa do perigo

                          Precisa ser astuto

                          Muito mais que destemido

                          Pra enfrentá o inimigo

                          Aí sim será possível

                          Revertê toda a situação

                          Deixá de sê o perseguido

                          Pra fazê a perseguição

                          E no momento certo

                          Quanto menos se esperá

                          Dá o bote certeiro

                          E o inimigo capturá

O TATU SE SENTA NA PEDRA E SE PÕE PENSATIVO.

Jaguatirica    - (PARA O TAMANDUÁ) Ocê precisa me tirá daqui. Quando ocê caiu na armadilha eu ajudei ocê a escapá!       

Tamanduá     - Eu sei, cumade! Mas, como posso fazê isso?

O HOMEM ENTRA DE SURPRESA.

Homem          - Olha só isso! Agora minha caçada ficou completa. Uma onça, um tamanduá e um tatu. Dessa vez vou faturar alto! Fazia tempo que uma caçada não era tão bem sucedida!.

O TATU SE LEVANTE E VAI EM DIREÇÃO AO HOMEM.

Jaguatirica    - Cuidado, cumpade!

Tamanduá     - Num faz isso! Ele vai te pegá!

Tatu                - Ô, seu home! A gente pode tê dois dedinhos de prosa!

Homem          - Não tenho nada pra conversar com você!

Tatu                - É que eu queria contá uma historinha pra vos micê…

Tamanduá     - Lá vai o cumpade com suas histórias!

Jaguatirica    - (PARA O TAMANDUÁ) Aproveita que o cumpade vai contá as suas histórias e tenta sortá esse nó que tá prendendo minha pata.

Homem          - (PARA O TATU) Tudo bem! Mas tem que ser bem rápido, pois preciso levar vocês logo daqui!

Tatu                - Num vai demorá nada. É só um tiquinho…

Tamanduá     - (PARA A JAGUATIRICA) Tá difícil, cumade!

Tatu                - (PARA O HOMEM) Era uma vez um home, lá pra bandas da Mata Larga… Um caboclo valente como ele só… Assim como vos micê aqui! Ele num tinha medo de tatu, de cobra, de tamanduá. Nem mesmo de onça, o caboclo tinha medo. Então, ele entrô na mata mais fechada que existia na região, tava disposto a enfrentá todos os perigos… E chegou lá, no meio da mata, com toda sua corage e valentia…

Homem          - (PARA O TATU) Dá pra ser um pouquinho mais rápido?

Jaguatirica    - (PARA O TAMANDUÁ) Vai cumpade! Tá quase soltando o nó!

Tatu                - (PARA O HOMEM) Tá certo! O home quer que eu seja rápido, então vamô lá!… O caboclo enfrentô todos os bichos daquela mata e vortô pra casa sastisfeito com a sua caçada, assim como vos micê tá, sastisfeito por tê capturado três espécies em extinção… Mas aí, quando o caboclo vortô pra sua casa, que tragédia… um outro bicho home, mais valente do que ele e mais ganancioso do que ele, tinha invadido sua casa e matado toda a sua família…       

Homem          - Ora, isso é conversa fiada. Vou acabar já com essa brincadeira! (E SACA SUA ARMA).

O TAMANDUÁ CONSEGUE SOLTAR A JAGUATIRICA. OS TRÊS BICHOS CER-CAM O HOMEM.

Tatu                - … Só que o bicho home num aprendeu a lição e continua a invadí as matas atrás dos animar em extinção. Ê bicho burro esse tar de home!…

O HOMEM APONTA A ARMA PARA O TATU, MAS A JAGUATIRICA PULA EM CIMA DELE. OS DOIS LUTAM. O HOMEM CONSEGUE ESCAPAR E SAI DE CE-NA. BLACK-OUT.

LUZ GERAL. O TATU ESTÁ SENTADO NA MESMA POSIÇÃO DO INÍCIO, EN-ROLANDO SEU FUMINHO.

Tatu                - Ê bicho mais burro, não, sô!

Jaguatirica    - Mas também se num fosse eu?

Tamanduá     - Mas seu eu num tivesse te soltado…

Tatu                - Só, que se num fosse o meu causinho, o tar do bicho home, tinha era papado nós três…

Jaguatirica    - É! Isso bem que é verdade!

Tamanduá     - Ê cumpade mais esperto, sô!

Tatu                - Já que ocês gostaram tanto desse meu causinho, vou contá outro pro’cês…

Tamanduá     - Chega de causo por hoje, cumpade!

Jaguatirica    - Também já tô sastisfeita!

OS DOIS SAEM DE CENA.

Tatu                - E tem cumpade que num acredita nas minhas histórias!

O TATU ACENDE SEU FUMINHO DE ROLO, PEGA SUA VIOLA DE TRÁS DA PEDRA E COMEÇA TOCAR UMA MODA.

                          Coitado do bicho home

                          Que se acha o mais esperto

                          Nós caça porque tem fome

                          E ele por sê anarfabeto

                          Num sabe que samos parte

                          Todos da mesma família 

                          O home só faz besteira

                          E cai sempre na armadilha…

APAGUAM-SE AS LUZES. FECHAM-SE AS CORTINAS.

                                                           - FIM -